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JANEIRO DE 2007
06/01/07: Muitos - ou poucos mesmo - devem estar se perguntando que diabo levou o webmaster do ViaCrux. Não foi só um diabo, foram muitos, meus amigos! No entanto, me libertei e após uma estadia curta no inferno, uma agitada cidade num velho e distante país chamado França, voltei para o paraíso sem culpa e sem remorso: Rio de Janeiro!
Peço
desculpas transatlânticas às pessoas que me enviaram textos
e fotos para publicar no site nesse meio tempo, mas faltou tempo, disciplina,
ocasião e sobretudo organização. Como vocês sabem,
no inferno não há nada disso. No paraíso também,
mas de vez em quando dou um pulinho no purgatório, onde não
existe absolutamente nada a fazer a não ser levar chicotada, tomar
banho de azeite fervendo, outros tormentos e também deleites do prazer
humano, e sento em frente de um computador. É o que estou fazendo
nesse exato momento. E voilà, eis novamente o site de escalada
que já fez seus 4 anos de existência, para o meu próprio
espanto!
O material enviado nesses últimos meses - novidades ou não
- serão aos poucos sendo publicados.
E antes que eu me esqueça, muitas boas escaladas em 2007 para todos vocês, seja na falésia, na montanha, em boulder e até mesmo naquele murinho safado e milagroso que você construiu dentro de casa.
Tamos aí e um forte abraço, como se diz nos morros cariocas!
[Início]
Um monte de cumes na Serra dos Orgãos
22/01/07: [por Antônio Paulo Faria] No dia 6 de junho de 2006, fomos ao Parque Nacional da Serra dos Orgãos (PNSO) para tentar realizar o projeto "N CUMES" ou "UM MONTE DE CUMES" em apenas um dia. Participaram da empreitada: Antonio Paulo Faria (42), Adrian Giassone (40), Fernando Vieira (40) e Flavio Daflon (33). Conseguimos em parte, fizemos as seguintes montanhas:
| Escalavrado | Cume às 03:45 hs |
| Dedo de Deus | Cume às 06:50 hs |
| Verruga do Frade | Cume às 11:20 hs |
| Pedra Cruz | Cume às 11:20 hs |
| Agulha do Diabo | Cume às 14:50 hs |
Essa história de "um monte de cumes em um dia" não é nova. Em 1997 ou 1998, eu já havia subido sozinho e em um dia: Garrafão, Pedra do Sino, Pedra Cruz, São Pedro e Agulha do Diabo, mas dormi na Pedra do Sino, isto é, havia começado às cinco horas da manhã, saindo do ponto mais alto.
Anos
depois, comecei a planejar a tal trilogia da Serra dos Órgãos,
juntamente com o Álvaro Loureiro. Mas acabei fazendo sozinho em
2005, quando subi o Escalavrado, o Dedo de Deus e a Agulha do Diabo, em
14 horas [leia o relato completo na seção de ARTIGOS
do ViaCrux: 18/03/2006: Trilogia II na Serra dos Orgãos: Dedo de
Deus, Escalavrado e Agulha do Diabo]. Entretanto, o plano original
era incluir o Garrafão, mas não foi possível porque
estava ameaçando chover.
Muitas pessoas duvidaram que eu tivesse feito tal empreitada, o que achei
graça porque não é nada demais. Resolvi então
brincar com a situação, envolvendo outras pessoas no próximo
projeto, isto é, no lugar de apenas um "mentiroso", serão
vários. Obviamente estou me referindo a este projeto, o "Monte
de Cumes". Eu mesmo nunca dei muita importância a esses projetos.
Para se ter uma idéia, somente para escalar o Fitz Roy ou o Cerro
Torre, muitas vezes é preciso ficar em atividade por 2 ou 3 dias
sem descanso, e muitas pessoas fazem isso. O
Bernardo Collares, que também iria fazer parte do grupo, fez o
seguinte comentário: "Antigamente o pessoal levava dois
dias para escalar o Dedo, eles bivacavam onde hoje é a Santinha,
imagine o que eles devem pensar da gente hoje, quando subimos e descemos
isso (o Dedo de Deus) em pouco mais de duas horas! Imagine se eles vão
acreditar que podemos escalar um monte de cumes em apenas um dia!"
A seguir, conto um pouco como foi a nossa aventura.
Red Bull é doping? Se for, então eu e o Flávio Daflon fizemos dopados. Flávio e eu dormimos em um hotel de Teresópolis e às 2h 50min da manhã já estávamos estacionando o carro perto da base do Escalavrado. Fernando Vieira e Adrian Giassone já se encontravam lá, os dois saíram do Rio dirigindo uma Toyota Bandeirantes velha, ou seja, já deviam estar cansados. A subida do Escalavrado foi muito tranqüila, serviu como aquecimento. Quando chegamos ao topo, às 3h e 45 min, deu vontade de ligar para o Bernardo Collares para acordá-lo e brincar com ele, mas desistimos da brincadeira porque ele queria muito fazer parte do projeto e não pôde porque teria de trabalhar. Descemos, pegamos os carros e fomos estacioná-los na Santinha, onde comemos alguma coisa antes de subir o Dedo de Deus.
Fernando já entrou na trilha correndo, sumiu na frente. Fui por último. Na base da Chaminé das Pedras Soltas (início dos cabos de aço) encontramos uma dupla dormindo, esperando clarear para escalar. Próximo à bifurcação me aproximei do Flávio e do Adrian. O Fernando cismou que era mais rápido subir pela via Teixeira e o Adrian teve que ir com ele. Flavio e eu fomos pela Leste. Foi sensacional porque o Sol estava nascendo e escalamos a via inteira com uma luz fantástica. Fiz boas fotos. Chegamos no topo quando eram 6h e 50 min, não havia ninguém no topo. Pensávamos que a outra dupla iria chegar primeiro porque partiram bem antes. Ficamos cerca de dez minutos no topo e começamos a fazer os rapéis. No final da última chaminé da Teixeira, encontramos Adrian e Fernando. É claro, "zoamos" os dois, porque o Fernando acreditava ser mais rápido por aquela escalada. Contudo, eles conseguiram nos alcançar quando nos encontrávamos na Chaminé das Pedras Soltas. Passamos novamente pela dupla que dormia no bivaque, mas eles estavam acordados e aproveitamos para trocar algumas palavras. Flávio e eu comentamos o que esses caras deveriam pensar de nós: subimos, descemos e eles continuavam lá! Mas não falamos do nosso projeto.
Fomos tomar o café da manhã no Paraíso da Plantas. Estávamos "inteiros". Flávio e eu dividimos uma latinha de Red Bull, o que me deu alguma energia extra. Se for doping não sei, mas ajudou na performance. Fomos à Verruga do Frade. O tempo estava magnífico e a caminhada foi tranqüila. Flávio e eu escalamos em simultâneo e o Fernando subia logo abaixo de mim, gemendo muito. Eu não perdia a chance de gozá-lo:
—
Adrian!! O que está acontecendo com o Fernando, parece que ele
está sendo (...). Como geme!
Fernando respondia com bom humor, apesar de passar espremido pela chaminé,
que realmente extrai da gente alguns gemidos. Flávio e eu chegamos
ao topo, fizemos alguns fotos e descemos logo em seguida. Adrian e Fernando
se enrolaram no "crux" da via, chegaram no topo uns vinte minutos
depois. Desci rápido e me adiantei para fazer fotos do Adrian e
Fernando, enquanto ainda estavam no topo. Na Passagem da Neblina o cansaço
apareceu, as pernas já não respondiam da mesma forma e a
altitude parecia cobrar seu preço. Diminui o ritmo e fui à
Agulha do Diabo, não consegui acompanhar o Flávio.
O grupo se reuniu na base da Agulha. A idéia original era escalarmos em simultâneo, porque dois anos atrás, Álvaro Loureiro e eu subimos a via inteira em apenas 20 minutos. Entretanto, estava muito cansado para isso, tanto é que nem conseguia raciocinar direito, porque não lembrava por onde a via passava, inclusive o rapel. Contudo, conseguimos chegar ao topo às 14h e 50 min e sabia que o projeto "Um Monte de Cumes", ao menos para mim, acabaria ali. O Flávio parecia estar bem, o Fernando reclamava um pouco, dizendo que não dava para prosseguir com o projeto por causa do "atraso na programação" e o Adrian também estava muito cansado. Descemos rápido e fomos para a base da Chaminé Cassin. Flávio chegou primeiro, eu cheguei uns 10 minutos depois, o Fernando chegou uns 15 minutos depois de mim e o Adrian precisou de mais 20 minutos para nos alcançar, eram aproximadamente 17h quando ele chegou.
Fizemos uma reunião e votamos para saber se continuaríamos ou não, isto é, escalar a Chaminé Cassin, ir até o topo do São Pedro, passar pelo Abrigo 4 e descer pelo caminho normal da Pedra do Sino. Àquela altura nem cogitávamos mais ir ao Garrafão, mesmo porque ficaria escuro em meia hora. Deixei claro que as minhas condições não eram boas e o mesmo fez o Adrian. O Fernando também não queria continuar, o único que aparentemente estava "sobrando", era o Flávio, justamente o que estava mais preocupado com seu rendimento antes do projeto começar. Na base da Cassin, ele disse:
— É, mas se tivesse alguém para ir comigo, eu iria continuar.
Eu aproveitei e zoei, como de costume:
— O Flávio é mesmo malandro, ele está falando isso porque sabe que ninguém quer ir, por isso está tirando onda aí dizendo que ainda está inteiro.
Mas
brincadeira à parte, sabia de sua superioridade física.
A descida foi
muito dolorida, as pernas estavam no "bagaço". O Fernando
queria descer correndo, mas resolveu ficar com o grupo. Aproveitei e disse
— Pô Fernando, aproveita que você está "inteiro",
desce correndo até a cidade, compra umas duas pizzas, volta e espera
por nós no carro.
Ele não topou a idéia, que era gozação, obviamente. Chegamos no carro às 20h. Fizemos o percurso em 17 horas. Ficamos um pouco decepcionados em não fazer o projeto integral, mas não tenho dúvida que o projeto é possível, mas o ideal é quando os dias são mais longos, como no verão e, no meu caso, preciso fazer fortalecimento na musculatura das pernas. No mais, o grupo foi fantástico, o astral foi muito bom o tempo todo. Foi uma grande diversão.
Abaixo, segue o cronograma do projeto original.
|
Projeto 'Um
Monte de Cumes' no PNSO |
||||
| Montanha | Via |
Início
da Caminhada |
Cume |
Chegada |
| Escalavrado | Normal + escalada |
03:00 |
03:50 |
04:45 (carro) |
| Dedo de Deus | Maria Cebola |
05:15 |
07:00 |
08:30 (carro) |
| Verruga do Frade | Normal |
09:40 |
11:30 |
- |
| Pedra Cruz * | Caminhada |
passagem |
12:30 |
passagem |
| Agulha do Diabo | Normal |
- |
13:30 |
14:00 (base) |
| São Pedro | Chaminé Cassin |
15:00 (base) |
16:00 |
passagem |
| Garrafão | Normal |
- |
18:00 |
- |
| Pedra do Sino | passagem |
- |
19:30 |
21:00 (carro) |
(*) Dependendo da situação, ainda poderemos subir a Pedra Cruz em uma segunda vez, mas via Paredão Paraguaio, mas já será noite.
[Início]
23/01/07: [André Ilha] Em Setembro de 2006, a escaladora Natascha Krepsky e eu fizemos uma ótima viagem de escalada pelo Nordeste (mais uma!), na qual abrimos 20 novas vias. Foram 15 vias inteiramente em móvel, 3 com proteção mista e apenas duas em grampos (ambas para chegar a cumes até então virgens). Repetimos ainda muitas outras vias, principalmente em Quixadá, onde estivemos presentes no V Encontro de Escaladores do Nordeste e no Parque Estadual da Pedra da Boca, que agora já pode ser considerado como um centro de escaladas bem estabelecido, com mais de 30 vias de graus variados de dificuldade.
| Irauçuba
- Ceará |
Começamos nossas peripécias por Irauçuba, o município mais seco do Ceará e em acelerado processo de desertificação, para o qual, num grande mutirão, muitos moradores locais procuram colaborar como podem, fazendo queimadas diárias para torrar o pouco que ainda sobrou.
Lá fizemos, logo de cara, em uma formação conhecida como Barriga de Pedra, a Nó nas Tripas (2º III, 110 m), via que segue por fora uma fenda larga, por uns 60 m, depois continua em lances de agarras e, por fim, vem a tesoura final, nos blocos do topo. Descida por caminhada, com os Dois Picos de Irauçuba logo atrás.
Depois conquistamos, em dois dias, o lindo cume da Pedra do Balão, um pontão de cerca de 70 m de altura no distrito de Missi, pela via Ilusão Vertical (4º VIsup A1, 65 m). Ela começa com uma chaminé larga, depois segue por uma pequena seqüência atlética de agarras, que é o seu crux, em seguida vem um inevitável artificial fixo com oito parafusos e, por fim, os lances de agarras finais, bem mais fáceis e longos do que os primeiros. Lindo cume, linda vista, horrível calor, com livro de cume, mas sem foguetório. O nome deve-se ao fato de que a via parecia ser MUITO mais fácil quando vista de baixo.
| Tejuçuoca
- Ceará |
A etapa seguinte foi nas falésias calcárias de Tejuçuoca, outro lugar quente como o forno do Capeta, onde ficamos no alojamento do Parque Ecológico da Furna dos Ossos (a furna é uma pequena gruta em forma de túnel, onde há três sepulturas).
Lá, em 2000, eu já havia solado a Chaminé dos Esqueletos (III, 25 m), atrás da Furna dos Ossos, mas desta vez, em quatro dias, fizemos 12 novas vias inteiramente em móvel, sempre descendo do topo das falésias por meio de rapéis em robustos galhos de árvore, principalmente gameleiras. A rocha lembra bastante a do Morro da Pedreira, na Serra do Cipó, mas com uma diferença importante: além das “facas” e “serras” e “lâminas” típicas do calcário, esta ainda tem um mineral incrustado que dá à pedra a agradável textura de um ralador de coco – uma razão a mais para não cair guiando!
Na parede à esquerda da entrada da Gruta dos Veados Campeiros fizemos, da esquerda para a direita, as seguintes vias:
| Nome da Via | Grau
de Dificuldade |
| Capim Novo | III,
15 m |
| Coiote Coió | II,
20 m |
| Teoria dos Anticorpos | V,
25 m |
| Hocus Pocus | VIIa,
25 m |
| Matungo (imediatamente à esquerda da entrada da gruta) | IIIsup,
20 m |
Em um pontãozinho bem à direita da entrada da mesma gruta fizemos também a Nove e Cinqüenta (III, 25 m).
Na falésia um pouco maior existente à direita da Gruta do Encanto, fizemos três vias com inícios muito próximos entre si, mas, a partir das paradas obrigatórias devido ao atrito, suas segundas enfiadas divergiram bastante. Da esquerda para a direita, foram elas:
| Nome da Via | Grau
de Dificuldade |
| Sol e Aço | VI,
35 m |
| Sapo Cururu | VI,
35 m |
| Hino à Dor |
Vsup, 35 m |
Tanto a Hino à Dor quanto a Sapo Cururu têm como crux fissuras de meio corpo no ralador de coco. Meio grau a mais para cada uma por esta razão, sendo que a minha calça comprida foi para a lata do lixo logo após fazê-las (nesse aspecto, a Sol e Aço é bem mais “arejada”!).
Finalmente, no valezinho existente após a gruta do Amor conquistamos também as seguintes vias, da esquerda para a direita:
| Nome da Via | Grau
de Dificuldade |
| Grilo Falante | V, 25 m |
| Leitãozinho Burguês | V, 25 m |
| Acauã (bem na entrada da segunda seção da gruta) | III, 25 m |
| Quixadá
- Ceará |
Seguimos então para Quixadá, onde repetimos muitas vias maneiríssimas na Pedra do Cruzeiro, Pedra Faladeira, Pedro do Magé e Corredor do Meio Dia.
Participamos ainda do V Encontro de Escaladores do Nordeste, que reuniu pouco mais de 100 escaladores de todo o Nordeste e de outros pontos do país.
Das vias que conheci, destaque para a Pequenos Espiões (5º VIsup) na Pedra do Cruzeiro e a Menino do Buchão (IV) e Pura Potó (VI), ambas na Pedra do Magé.
| Campina
Grande & Fagundes - Paraíba |
Saímos de Quixadá de van com amigos de Campina Grande e nos dois dias seguintes conquistamos duas pequenas escaladas com proteção mista em dois pontõezinhos virgens (ou boulders gigantes, como preferirem) no município de Fagundes – as primeiras vias daquela localidade.
A primeira foi a Pau-de-Arara (VIsup/VIIa, 22 m) no maior deles, que batizamos de Pedra da Coroa, e a segunda foi a Pai d'Égua (IV A1 (4), 15 m) na elegante agulha que já possuía o nome de Pedra da Gameleira.
| Brejo
da Madre de Deus & Barra do Farias - Pernambuco |
A etapa seguinte foi em Pernambuco, num município que possui um razoável potencial para a escalada e que quer investir nisso, visto que Brejo é o provável local do Encontro de Escaladores do Nordeste do ano que vem.
A cidade, onde se situa a famosa Nova Jerusalém, das encenações bíblicas anuais durante a Semana Santa, só possuía cinco vias estabelecidas: duas soladas por um morador local, o Heraldo Gouveia; duas na Pedra Bicuda, a mais destacada formação dali; e uma outra do presidente Bernardo Collares em uma falésia urbana, sintomaticamente batizada de O Diedro dos Grampos Mal-Batidos (batendo grampos em diedros, presidente? que coisa feia! ai, ai, ai!).
A estas cinco vias nós acrescentamos quatro outras, duas delas em fissuras “de revista”. A primeira foi a Via Crucis (3º IV, 40 m) na Pedra do Gavião (Pedra do Gavião nº 874-C) feita por mim, Natascha e Heraldo, onde levei diversas ferroadas de vespas, uma delas no olho, que ficou, por três dias, como se eu tivesse apanhado do Mike Tyson. À sua direita eu, Natascha e Lúcio Uchoa (de Recife) subimos a espetacular A Justiceira (VI, 20 m), um diedro voltado para a direita numa rocha vermelha como aqueles arenitos do deserto americano, só que bem mais sólida, fora algumas (muitas) lacas soltas. Ambas foram totalmente protegidas em móvel, mas contam com grampos de parada/descida no final.
Já no distrito de Barra do Farias eu, Natascha e Heraldo subimos um morrote virgem apropriadamente chamado pelos locais de Pedra Selada, pela Travessia do Serrote (2º IV, 100 m), um longo e delicioso sobe-e-desce nos dois cumes principais e pontas secundárias, com proteção em 4 grampos e mais um no final para rapel. Parece aquelas coisas de Itatiaia, só que bem mais quente. E num boulder colossal ali perto, a Pedra do Morcego (Pedra do Morcego nº 1132-B), nós três subimos a igualmente espetacular fenda de Madredeus (VI, 20 m), quase toda em móvel exceto por um grampo entre o final da fenda e o topo da formação.
| Parque
Estadual da Pedra da Boca - Paraíba/Rio Grande do Norte |
Para concluir a viagem, repetimos diversas vias neste grande point da escalada nordestina, todas muito boas, mas uma delas excepcional: Psico Tico (6º VIIa), três enfiadas de corda muito contínuas, protegidas por grampos, numa canaleta sinistra na Pedra da Santa. Vale a pena conferir!
Concluindo, o Nordeste como um todo tem cada vez mais opções de destinos, tipos de rochas e estilos de escaladas para atender a todos os gostos, e tem cada vez mais escaladores locais, com sua notória simpatia e hospitalidade. Volto logo que possível!
[Início]
24/01/07: [Neto Tavares] Conquistada em 1986 por Alexandre Portela, Marcelo Ramos e Carlos Costa, a via Sinfonia do Delírio (7º, VIIc E2 D4) já nasceu uma via cinco estrelas! Composta por um sistema de fendas incrível que marca a face sul do Pico dos Quatro, são aproximadamente 450m de escalada, sendo quase cem metros em uma ininterrupta fissura de dedos frontal e outros setenta dentro de um enorme diedro cor de rosa. Uma preciosidade! A singularidade de seu estilo, graças a uma conquista limpa e à exigência de suas enfiadas, somadas ao visual único de São Conrado, Barra da Tijuca e todo infinito horizonte que segue com o mar a fora, fazem desta escalada uma unânime jóia rara! Mais raro ainda foi saber que a conquista incluiu até mesmo um “artificial de piolet”. Dá pra imaginar?
Sempre ouvira falar da tal Sinfonia, uma escalada única, com fama de difícil e comprometida. Para olhá-la à distância basta ir de carro até ao Elevado do Joá, que liga São Conrado à Barra da Tijuca, apertar o pisca-alerta e encostar bem. Vale até mesmo parar o trânsito no meio do elevado só para poder observar melhor a linha da via. Daí vemos um fino e imenso corte na rocha conduzindo à um diedro branco gigantesco já na parte alta daquele paredão. Os poucos atentos devem estar se perguntando se o contador de estórias aqui se empolga ou é daltônico! “Primeiro o diedrão é rosa, agora ele é branco?” Pois é, de tudo o que escutara sobre a via, sempre houvera alusão à tal coloração rosa do diedrão. E eu aqui debaixo só o enxergava branco, no máximo um pouco amarelado. Todavia pude constatar, o diedro é realmente rosa! Constatação somente possível quando visto de perto, como eu, quando esticado numa oposição impressionante naquele diedro. Inclusive ouvindo o coro que vinha de dentro do mesmo. Um coro de morcegos desesperados, que provavelmente se perguntavam: “Quem são esses dependurados aí fora?” Éramos nós; Flávio Daflon, Luis Claudio Pita, Rodrigo Kotait e eu; maravilhados com a capacidade da natureza em riscar uma montanha com tanta maestria e generosidade!
Desde então faziam três semanas que eu, Pita e Daflon havíamos ido até lá para dar um grau na via, uma reavivada para dizer a verdade, já que havia bastante tempo desde que os últimos “fissurados” estiveram por ali. Foi preciso um dia inteiro para arrancar todo o capim que havia nascido e crescido nos quase cem metros da fissura frontal, que caracterizam a primeira parte da via. Por fim deixamos apenas as pequenas árvores, que foram espertas o suficiente para se manterem bem entaladas naquela fenda. Seguimos o exemplo e espertos e bem entalados fomos livrando-nos até mesmo de lama, que entupia a passagem, e continuamos subindo. A revitalização da via não terminou por aí. Munidos de furadeira, ou melhor, do Pita, “substituímos” grampos podres e acrescentamos novos às paradas, agora duplas, do rapel; que se dá todo por fora da via. Após esta primeira investida já não mais existia descrição no mundo que representasse o que me acabara de ser apresentado. Havia conhecido metade da via, sua primeira parte, e já estava viajando. Ou seria delirando?
Passaram-se as três semanas e rapidamente voltamos lá. Refizemos toda primeira parte e passamos a noite no platôzão. Já faziam algumas horas, desde que eu me encontrava ali, esticado, suando, vendo rosa e ouvindo morcego... ainda por cima em close! Close? Foi aí que surgiu o Kotait na empreitada. A par de muita disposição e comida desidratada, o cara não só filmou, como conseguiu fazer oposição com seus 2m de altura. Nunca tinha visto aquilo antes! Fantástico! Enfim, o Kotait foi registrar umas imagens durante a via, mas quem deveria estar com a câmera naquela hora era eu! Para a segunda parte da via também reservamos um bom tempo a fim de recuperar este trecho que não via uma repetição há mais de uma década. Um verdadeiro privilégio escalar uma via como esta, numa das montanhas mais incríveis e menos exploradas da nossa cidade maravilhosa.
Chegando à base da chaminé, ponto final da nossa jornada, o serviço ainda não terminara; ainda havia toda recuperação do rapel não realizada na primeira investida, isso é, o trabalho pesado! Peso esse que se esquece quando se está descendo, no fim da escalada, sob um final de tarde sublime, com o cansaço típico da fome emudecendo a todos, e do fundo de uma garganta qualquer sai o maior flagrante da satisfação de um escalador; um “ENTON!!!”. Pronto, peso esquecido!
A verdade é que peso mesmo deve ter conhecido o Portela durante a conquista, quando em plena chaminé final, entalado em posição de Papai Noel (essa é outra estória) deslocou-se sobre suas coxas um “aparelho de TV dos Flintstones”, isso mesmo, um bloco dos grandes ficou entalado no colo do escalador. Lá embaixo, em uma parada móvel na base da chaminé, o Ramos, que àquela época imaginava que equinócio fosse apenas matéria geográfica, ainda não sabia o que tinha na cabeça, ou melhor, sobre ela. Sorte dele e do Carlinhos, que o Alexandrinho com toda sua destreza livrou-os daquele importuno.
Apesar de pouquíssimas ascenções, outros flagrantes de EQM (Experiência de Quase Morte) ali se passaram. Silvia Fitzpatrick e o Luis Cláudio Pita foram outros que suaram frio. Após algumas enfiadas sem sequer ver uma proteção fixa, a atirada escaladora argentina não pestanejou em fazer uma parada na primeira que visse... um infeliz e oxidado grampinho de 1/4, de vergalhão soldado e ainda por cima com olhal pra baixo; e este precedia justamente um lance maroto em fator dois. A sorte desta vez foi que o Pita não só mandou sem cair a dificílima parte debaixo, como o lance posterior. Senão... paletó de madeira na certa! O mesmo Pita, um dos maiores freqüentadores da via, passou ainda por maus bocados junto a grande escaladora Kátia Torres, fazendo com que ele assumisse a liderança isolada neste perigoso tópico (EQM). Iniciando a segunda enfiada da via Pita apoiou-se na peça mais alta da parada, equalizada em três peças, só que a dita cuja se soltou, a segunda peça não agüentou a súbita pressão e... mais um EQM veio a tona, felizmente o mesmo não ocorreu com a dupla. Ficaram presos por somente um friend 1/2 no melhor estilo Jesus me chama. Haja adrenalina!
A via então pode ser dividida em duas partes distintas e complementares. A primeira parte inicia-se numa canaleta, seguindo por um diedro, até atingir o início da grande fissura frontal. Após esta mais um diedro e chega-se ao fim da primeira parte. Entre a primeira e a segunda parte encontram-se duas enfiadas intercaladas pelo Platô da Vela. Um grande platô de bivac, de onde é possível perceber a noite tomando forma, as buzinas cessando lá embaixo, o silêncio... e o sono profundo. Já segunda parte da via é o diedrão rosa propriamente dito, composta ainda pela enfiada que dá acesso ao mesmo e a chaminé posterior, que leva ao vara-mato final rumo ao cume.
No total são nove enfiadas até a chaminé. Fora as duas cordas que são imprescindíveis, “faz bem” levar para a primeira parte tudo o quanto você possuir de microfriends e mais um jogo misto de peças médias e grandes. Já para a segunda parte da via vale levar tudo o que você possuir de peças grandes e mais um jogo misto de peças pequenas e médias. Como disse, distinto e complementar!
Esta é a Sinfonia do Delírio, uma escalada única, imprescindível e cheia de estórias. Um lugar onde toda atenção com a natureza local é pouca. Imagine então com você!
Silvio Neto Tavares tem apoio da Equinox, Osklen e do Restaurante Lá em Casa.
| Mais
detalhes da via Sinfonia do Delírio pode ser encontrada
no impecável Guia
de Escaladas da Floresta da Tijuca de Flavio Daflon e Delson
de Queiroz, que pode ser comprado aqui. |
[Início]
30/01/07: Em novembro do ano passado a escaladora carioca Luciana di Franco de 23 anos conseguiu um feito inédito na escalada esportiva brasileira: ela se tornou a primeira mulher a encadenar guiando uma via de 10a. A via em questão é a variante Crux no Filezão, localizada na famosa Barrinha, uma das melhores falésias do Rio de Janeiro.
Luciana
escala apenas há 2 anos e meio e já é a nova promessa
feminina em rocha na escalada esportiva no Brasil. Aliás, já
deixou de ser promessa, é a realidade. Além do treinos em
muro e campus board semanais, sagrados para escaladores de vias
esportivas de dificuldade, a moça ainda se dedica bastante à
rocha e já possui em seu currículo vias e boulders de respeito.
Em falésia, suas principas cadenas são as vias Filezão
(9c), Crux com Certeza (9b), Espetinho (9a), Filé
com certeza (9a), Filé no Espeto (8c), Abobrinha
(8c) – todas também na Barrinha - e a travessia Ponte
Aérea (8c) na falésia do Campo Escola 2000. No incrível
calcário da Serra do Cipó em Minas Gerais foram colocadas
no bolso vias tais como Especialidade da Casa (8b) e Na Calada
da Noite (8a). Já em boulder ela tem o clássico Esquina
do Gringo (8a) na Urca, feita em apenas 5 tentativas. E Luciana encara
também uma parede na boa e já mandou vias delicadas tais
como a Waldo (6 VIIa), Cavalo Louco (5° VI+), Alfredo
Maciel (6 VIIc) e Ás de Espadas (6 VI+), todas no
Pão de Açucar na Urca.
E a moça treina muito, é incansável: praticamente
6 vezes por semana! E com muito custo e contra sua vontade – a não
ser quando o cansaço e as conhecidas seqüelas de muito treino
se impõem (vide a famigerada falta de pele) - ela adota dias de
descanso. Uma verdadeira máquina de disciplina e dedicação
à escalada, coisa rara entre mulheres na escalada esportiva aqui
no Brasil.
A
Crux no Filezão é uma junção do início
da via Crux com Certeza (9b) com a famosa via Filezão
(9c). A variante tem aproximadamente uns 110 movimentos de pura resistência,
incluindo o final explosivo de 9c da via Filezão. Seu
primeiro crux é na Crux com Certeza, um 8a delicado e
o segundo crux se encontra num lance delicado de domínio de um
tetinho na Filezão, lance isolado de 7c/8a. A partir daí
vem a grosseria de 9c e, se feita direitinho, vem também glória
final para o feliz encadenador!
Como sempre há polêmicas quanto ao grau da via, como acontece
principalmente com certas variantes. Alguns poucos acham que se trata
de um 9c/10a por conta de dois descansos - ou melhor "cansos"
- no entanto muita gente boa e forte já encadenou a via e confirmou
o grau de 10a.
Logo após a sua cadena da via Filezão na Barrinha,
Luciana se sentiu forte o bastante para tentar a variante. Em declaração
ao excelente EscaladaBrasil.com
Luciana disse que precisou de 28 tentativas em 14 dias para encadenar
a Crux com Filezão. “Como fiz a primeira parte da via
bem, me animei de dar o meu máximo no crux da via onde ela já
é cotada em 9c”, disse Luciana.”Daí
para cima era só administrar e me concentrar em mais um movomento
forte onde é preciso subir o pé bem alto travando em regletes
para rebotear com a mão direita na agarra boa.” Feito
isso, foi somente uma questão de dias para a cadena sair.
Com
determinação e disciplina - e de modo discreto - Luciana
não somente acabou se tornando a primeira mulher a encadenar guiando
uma via de 10a aqui no Brasil, redpoint de respeito, como também
se tornou a mais forte candidata no momento para mandar um 10b, um 10c.
E parece que tais cadenas, com a força e dedicação
da escaladora, não vão demorar muito para sair. Que Santa
Josune lhe dê forças e ilumine!
Sim, com a frase logo acima, acabei de realizar a milenar, refinada e
delicada “arte de botar pilha em escalador”. Ora, o que seria
de muitas das cadenas mundo afora se não fosse aquela pilha sagaz
para dar uma motivação extra? Enton!
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Leiam
mais sobre a escalada feminina no Brasil no artigo atualizado 'Escalada
Feminina no Brasil' do escalador Antônio Paulo Faria, publicado
no dia 24/10/2005 (pelo visto terá que ser atualizado novamente!).
Aliás, não deixem de comprar o livro 'Montanhismo
Brasileiro, Paixão e Aventura' de Antônio Paulo, lançado
recentemente na VI
Mostra Internacional de Filmes de Montanha. |
[Início]
Falésias de Petrópolis
(Parte I): Ser de Pedra e Cabeça de Cachorro
31/01/2007: [por Fábio Muniz] Depois de vários anos vendo muita gente escalando e conhecendo lugares com estilos diferentes, no Brasil e no exterior, posso dizer que essa experiência me ajudou muito tanto como pessoa como na escalada. E quando falo da minha experiência como escalador, é importante no entanto ressaltar, com uma visão objetiva, que a região de Petrópolis - na região serrana do Rio de Janeiro - foi uma base forte e bem variada para meu início nas escaladas, o que aconteceu há mais ou menos 16 anos atrás.
As
vias clássicas de aderência, a falésia vertical do
Ser (técnica/resistência, técnica/explosiva, técnica/continuidade/explosiva),
os negativos do Cabeça de Cachorro (resistência e estamina)
e o Morro da Formiga (uma mescla dos três estilos anteriores) me
ensinaram a saber me “colocar” e “experimentar”
o que viria pela frente. Estamos ainda no 10a (vide o projeto Salada
Mista no Cabeça de Cachorro com seu 4º esticão,
que é um provável 10b), mas nossas vias e falésias
são singulares, bonitas e ousadas, definitivamente para pouca gente
reclamar.
Ser de Pedra
Minha entrada (e da maioria dos escaladores petropolitanos) no mundo da escalada esportiva se deu quando o escalador Alexandre Galvão e eu vimos a falésia do Ser na Pedra Comprida (Bomfim). Foi um ideal de falésia européia, um sonho que aos poucos foi sendo transformado em realidade. Já tínhamos um gostinho no Morro da Formiga com as vias O Brilho da Malacaxeta (8b) – mais conhecida simplesmente como Malacacheta – e Laranja Mecânica (9a), mas o Ser viria a ser outra coisa.
A via que dá nome a falésia – a via Reluzências do Ser (8b), originalmente chamada de Ser de Pedra – foi a primeira via de escalada esportiva conquistada no local. Com 4 esticões, sendo o primeiro um 8b e o último um 6b ligeiramente negativo de buracos lá nas alturas, essa via é ainda uma das mais bonitas na falésia.
Foram anos com muitas conquistas, tendo a participação da maioria dos escaladores esportivos da época, verdadeiros pioneiros. O psicológico do Galvão instigava minhas primeiras paradas em cliff, a conquista do lance da virada do negativo lá no último esticão do Ser pelo Gláucio, as conquistas em solitário do Daniel Rabelais, a conquista do Gargalhadas e Lágrimas (10a) pelo Fernando “Nando” Aires e pelo Nicolau Araújo...tempo que não volta.
Comparando com os característicos locais de escalada esportiva espalhados pelo Brasil, a falésia do Ser é uma das mais generosas e bonitas do Brasil. É um lugar para a galera que se pendura forte nos negativos fazer uma revisão na movimentação de pés. Mesmo uma via como a Gargalhadas, que é pressão e continuidade em pequenos regletes, exige atenção especial do início ao fim. Apesar de ser uma placa vertical a maioria das vias são diferentes entre si, e pode-se desfrutar desde as médias/difíceis até as bem difíceis com diferente motivação.
Para futuras conquistas de vias de 7º e 8º o campo agora é limitado, mas ainda há linhas com super regletinhos para serem desvendadas. Temos até fendas de até 3 esticões com boa colocação móvel e bom entalamento para mãos e dedos (fato não muito comum em áreas de escalada esportiva). A maioria delas foi feita em artificial, mas possuem toda a chance de serem liberadas.
Eu diria que é o Ser é um local que resume vários estilos de escalada livre. E no verão há a chance de se escalar numa boa pela manhã e final da tarde.
Cabeça de Cachorro
Entre uma e outra conquista no Ser descobrimos esse pico, que depois tendo como referência as vias na Europa e nos EUA, vimos que se tratava da tendência da esportiva moderna. Quando o investigamos já não tínhamos *aquele* receio devido à altura, mas olhando a negatividade e a feição piramos com o tipo de movimentação que poderia rolar no Cabeça de Cachorro. Abaolados, buracos, invertidas, uso de entalamento com os pés e posições acrobáticas. Foi uma fissura!
As conquistas foram mais exigentes levando em conta o aspecto da precisão do local das proteções; alguns lances foram feitos em artificial e posteriormente tiveram que ser mudados. Ocorreram nessa época alguns vôos assustadores (e desconfio que eles acontecem até hoje!), mas depois de tudo pronto esses vôos (prazeirosos?) nem foram tanto bolantes assim.
Como havia falado, a movimentação no Cabeça é chocante. O lance da virada do negativo da via América Tropical (primeira via 8c/9a), por exemplo, só foi descoberto algum tempo depois usando-se um entalamento de joelho crucial para a cadena do lance. Depois vieram as vias Tridedo Perdido (9b) e Bala Perdida (9c/10a), que não tinham o visual do América mas eram até mais bonitas. As duas são bem estamina/explosão, com destaque para o Bala.
Não basta só força. Os lances-chave são bem trabalhados e diferentes. Infelizmente nesse paraíso o potencial é restrito, como disse acima. Há pessoas que sugerem cavar agarras, mas não fazemos isso aqui (e raramente foi feito) faz muito tempo. Vale mais olhar com calma a rocha e procurar por alguma mensagem do futuro! Ao lado dos 3º e 4ª esticões do Salada Mista (10a/10b) - os esticões que ainda não foram encadenados - na parte de cima, há sim possibilidades interessantes. Porém na parte inferior que circunda as vias a rocha existem trechos que são podres e escassos de agarras.
O negócio agora é tentar encadenar o Salada Mista com seus 100 metros de extensão, a via de escalada esportiva de vários esticões mais difícil do Brasil, e aproveitar, entre uma tentativa e outra, olhar então com atenção ao redor.
Fábio Muniz é petropolitano, escala há 16 anos e é patrocinado pela Equinox.
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Vinicius Todero encadena provável
primeiro 11a brasileiro (ou dois!)
31/01/2007: Se o início do mês de Janeiro desse ano for dar o tom do que vai ser a escalada esportiva no Brasil em 2007, então 2007 promete! O escalador gaúcho Vinicius Todero mandou um antigo projeto na incrível falésia da Gruta da Terceira Légua em Caxias do Sul, uma das mecas da escalada esportiva do Sul do Brasil.
O nome da via em questão, hilário por sinal, é Disciplina Não Ter Jedi Nunca Será, que passa por um teto hediondo para a direita do setor novo da falésia. O grau sugerido? 11a, o que traz um título inédito não somente para Vinicius como também para a história da escalada esportiva brasileira: o primeiro escalador brasileiro a mandar um 11a em rocha brasileira.
| Comentários de Vinicius sobre a via Disciplina Não Ter Jedi Nunca Será (10a) | ||||
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São
quatro vias que apresentam a mesma saída até a virada
de um teto: Góblins (10b), Redes Neurais (10b), Valhala (10a)
e a Disciplina Não Ter Jedi Nunca Será. Depois do
teto a via Góblins segue para a esquerda, as outras seguem
para a direita. A Disciplina é a que vai mais para a direita
e mais por baixo. Ela possui 55 movimentos, sendo que a primeira
parte é composta por um teto de uns 6 metros de agarras boas
que esta em torno de 9b. Aí tem um descanso bom e depois
a via segue fácil por mais uns 6 metros em diagonal para
a direita até um último descanso. Nesse ponto a via
segue finalmente reto para cima, onde o bicho pega de verdade: são
cerca de 15 movimentos relativamente difíceis. E para piorar
as coisas existe uma árvore exatamente atrás da via,
e em caso de queda o escalador corre o risco de cair bem próximo
ou até mesmo em cima dela, o que dá uma adrenada extra.
Quanto ao grau da via, este sim eu acredito ser um 11a, e considero
a Disciplina mais difícil que a Karma. |
"O que posso dizer", afirma Todero, "é que é muito gratificante realizar a cadena de uma via deste nível, ainda mais quando ela é a primeira via deste grau no país e se participa da conquista dela”. E Vinicius usa mais ou menos as mesmas palavras do escalador alemão Wolfgang Güllich – sempre um bom exemplo – na ocasião da cadena de sua ultra clássica via Action Directe em Frankenjura na Alemanha em 1991, que foi o primeiro 5.14d (ou 11c brasileiro) no mundo. “Outros escaladores poderão repetí-la,” diz o forte gaúcho, ”provavelmente mais rápido que eu, mas ter participado da conquista e ter realizado a sua primeira ascensão foi uma experiência única e maravilhosa.”
A cadena da via acabou saindo na segunda entrada de Vinicius em um belo dia de janeiro desse ano e isso depois de vários dias sem entrar nela, pois estava viajando. “Por incrível que pareça, e contrariando o próprio nome da via”, afirma o escalador, “a cadena, saiu em uma temporada que eu estava sem disciplina nenhuma em relação a escalada: sem treinar, sem dormir direito e só fazendo festa. Mas acho que de certa forma foi isto que me ajudou a mandá-la, pois entrei sem muito compromisso.” Vinicius pensa até em mudar o nome da via para "Disciplina Não Ter Jedi Será”!
E como se essa cadena não bastasse – em outubro do ano passado – o gaúcho ainda encadenou mais uma vez a via Sombra e Escuridão Karma (10c?), que também fica na Gruta, que é uma extensão da via Sombra e Escuridão (9b). O próprio Vinicius equipou a via com mais 3 proteções, o que acrescentou 12 movimentos na mesma. Uma agarra importante da via quebrou e em sua nova cadena da via, Viniciu acha que a mesma pode chegar agora a um 11a.
| Comentários de Vinicius sobre a via Sombra e Escuridão Karma (10c?, 11a?) | ||||
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Na
Karma quebrou uma agarra logo após o antigo crux tornando
a via mais difícil. Na realidade foram duas agarras, já
que se utilizava o bloco que quebrou para as duas mãos, inclusive
para fazer uma costura e passar um magnésioi. Acredito que
assim, o crux se tornou um pouco acima de onde era o antigo. Quanto
ao grau não estou bem certo se será um 10c forte ou
realmente 11a, até mesmo porque no final da Karma, no dia
da cadena, eu ainda toquei mais os 10 metros finais do projeto Universo
Paralelo. Esses 10 metros não acrescentam muito ao grau da
via já que se trata de um 7b, mas a deixa mais completa,
mais bonita - mas não são necessários. Desse
modo, acredito que seja um 11a. |
Dois prováveis 11a´s em curto espaço de tempo é prova do talento de um dos escaladores esportivos mais fortes do Brasil, que agora aguarda impacientemente por repetições de ambas as vias.
Escaladores esportivos brasileiros, com baudrier, magnésio, corda, costuras e sapatilhas na mochila e muita determinação e força, é uma boa hora para migrar para o belo Sul do Brasil. Bons motivos pelo visto não faltam!
| Vinicius fala sobre novos projetos na Gruta | ||||
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Aproveito
para divulgar a existência de ainda 4 projetos na Gruta.
Um deles de 10a/b que é a via Vai voando Urubu, que compartilha
a saída com a via Fuga de Zion (10b). A via Universo Paralelo
que fica à direita do Karma, cujas passadas não foram
tiradas até agora, que pode ser no mínimo um 11a também.
Outro projeto, este mais antigo, é a via Perigosa é
a Ervilha, também um possível 11º. E no último
fim de semana o Roni Andres, o Dioni Capellari e eu abrimos mais
um saída em teto e que vai pegar o final da Fuga de Zion.
Este projeto ainda está sem nome mas certamente será
outro 11º. |
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Sobre o Rio Grande do Sul, leiam ainda no ViaCrux : ARTIGOS: 18/04/2005: Quanta rocha tchê! Escaladas no Rio Grande do Sul : ARTIGOS: 05/07/05: Sombra & Escuridão Karma e os Leões Comedores de Gente no RS : NOTÍCIAS: 08/12/05: Primeira repetição da via Sombra e Escuridão Karma (10c?) no RS : ARTIGOS: 15/03/06: Escaladas em Caxias do Sul, RS. |
| Vinicius Todero é gaúcho de Caxias do Sul, tem 22 anos e escala há uns 6 anos e meio. | Colaboração:
AGM
& Agarrassauro |
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