![]() |
![]() |
![]() |
Maratona
de Escalada: IV Mostra de Filmes de Montanha 2004
por André Neves
Fotos: Still dos Filmes da Mostra Brasil feitos na Tela do Cine Odeom
Todos os direitos sobre o texto e fotos são reservados.

| Organização: |
9d Produções |
| Apoio: |
Osklen e Equinox |
| Realização:: |
Banff Centre International Aliance For Mountain Film FEMERJ |
O Cine Odeon, no Centro do Rio de Janeiro, sediou nos dias 10, 11 e 12 de setembro, a IV Mostra Internacional de Filmes de Montanha, que trouxe para o público brasileiro as últimas tendências dos esportes de aventura. Além de filmes brasileiros, a mostra contou com uma seleção dos melhores filmes de 30 países que participaram da competição do Banff Mountain Film Festival de 2003. A seguir seguem alguns comentários somente a respeito dos filmes relacionados a escalada. Tudo bem, alguns fora desse tópico eram bem legais, mas a galera queria e quer mesmo pedra!
1º
d i a
m o s t r a...b r a s i l
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
Os organizadores do evento, Larissa Cunha e Alexandre Diniz, deram o pontapé inicial na mostra de filmes, que esse ano contou com uma novidade logo no seu primeiro dia: uma mostra competitiva apenas de filmes nacionais produzidos aqui no Brasil ou no exterior. E por isso mesmo, o primeiro dia foi a grande sensação do evento. A fila e quantidade de pessoas não deixa mentir: com ingressos das duas sessões esgotados, o cinema ficou lotado, inclusive com pessoas sentadas no chão. E muita gente ligada ao montanhismo nacional estava lá, do Rio de Janeiro e também de fora e de todas as tribos.
Acho que o grande trunfo da Mostra é justamente essa capacidade de reunir todas essas pessoas sob o mesmo teto. Geralmente as encontramos ocasionalmente, na base (ou no meio!) das falésias ou montanhas, nas trilhas ou em alguma área de bouldering. Rara a oportunidade de ver tanta gente conhecida reunida: amigos, desafetos, parceiros de escalada e outras pessoas da nossa pequena comunidade. O que era para ser apenas uma mostra de filmes, acaba sendo também um grande evento social. Aquele seu amigo escalador que você não vê há séculos? Provavelmente você o encontrou lá. Aquele chato, com o qual você jurou de pés juntos nunca mais escalar, também estava lá. Enfim, para o bem ou para o mal, o social rolou forte, dentro e fora do cinema, afinal estamos falando da Cinelândia, tradicional reduto da bohemia carioca.
Os filmes nacionais ainda não possuem o mesmo nível técnico de boa parte dos filmes estrangeiros, mesmo porque a coisa ainda está engatinhando aqui, mas o produto nacional mostrou o seu valor aqui. Não importa, mesmo as produções que pecaram por certo amadorismo e falta de um maior esmero nas filmagens e edição, valeram a pena. Muito a pena. Simplesmente é muito bom ver na telona vias de escalada que você conhece, que lhe são familiares, vias ou lugares que você ainda não conhece ou não teve oportunidade de conhecer, e também amigos, conhecidos e até você mesmo! Criou-se um clima extremamente agradável nas duas sessões dessa Mostra Brasil. Ponto para a produção. Idéia genial. E todos os filmes foram aplaudidíssimos, com destaque para os filmes Cariocando e Cinqüentona Galotti.
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
A Mostra Brasil era de caráter competitivo, parte do I Festival de Filmes de Montanha do Rio. O mais votado pelo público como sendo o melhor, seria escolhido para participar do processo seletivo do Banff Mountain Film Festival de 2004. O vencedor foi anunciado ontem no último dia da Mostra, no caso o documentário Cinqüentona Galotti, de Priscila Botto e Paulo de Barros, uma homenagem ao cinqüentenário da conquista via Chaminé Galotti no lado direito do totem da Face Sul do Pão-de-Açucar. Em meio a depoimentos feitos pelos conquistadores da via e imagens de época, os escaladores Sérgio Tartari e Sérgio Poyares tecem comentários sobre a famosa Chaminé e a escalam com a competência que lhes é sabida (não sem um veneninho eventual, pois mesmo com meio século a Galotti não é de graça!). A escalada é feita com equipamento móvel, evitando sempre que possível grampeação fixa. O documentário soube dosar com igual competência humor, história e escalada e de quebra conseguiu deixar boa parte do público comovida com as declarações dos já idosos porém inteiraços conquistadores da via, e isso sem nunca cair em sentimentalismos desnecessários.
O outro favorito do Festival, o filme Cariocando - Escalada Esportiva, de Sancho Corá, Carlos Sanmiguel e Hillo Santana, mostra um pouco da estória e da cena atual da escalada esportiva carioca. O filme conta idéias boas, como a reunião de Marcelo Braga, Marcello Ramos e André Ilha na base da falésia dos Ácidos na Urca, contando várias estórias sobre as origens da escalada esportiva no Brasil e escalando, claro! Outro trecho interessante, foi o depoimento do veterano Tadeusz Hollup sobre a conquista da Chaminé Galotti. Infelizmente, o documentário Cinqüentona Galotti, mostrado na primeira sessão, acabou esfriando o público para o relato divertido, mas que acabou se repetindo, do escalador. As filmagens devem ter dado muito trabalho, pois a variedade de vias e locais de escalada é grande. Além disso, parece que houve uma preocupação louvável da parte da produção ao fazer uso de uma variedade significativa de escaladores no filme. O Cariocando fechou a mostra do dia com chave de ouro e humor, através da louca travessia "E6" de bicicleta do escalador Luciano "Lupa", com seu indefectível crash-pad nas costas, por entre os carros na super movimentada avenida na saída da Avenida Pasteur na Urca. Definitivamente, talvez seja mais seguro solar a via Estranha Realidade no Pão-de-Açucar!
E além da bonita exposição de fotos no Hall do Cine Odeon, do montanhista e fotógrafo argentino Aníbal Sciarreta, rolou no mezanino do cinema o lançamento do tão aguardado Guia de Escaladas da Floresta da Tijuca de Flávio Daflon e Delson Queiroz (com participação especial de Cíntia Adriane!), os mesmos autores do excelente Guia da Urca. Como esperado, o resultado não deixou nada a desejar, o guia tem as mesmas qualidades do Guia da Urca, bonito, informativo, croquis bem claros e detalhados e ainda conta textos interessantes, como o do escalador Antônio Paulo Faria sobre a formação do Maciço da Tijuca. Nem é preciso dizer que o guia se esgotou rapidamente. E nem é preciso dizer que ele não pode faltar na estante e na mochila de qualquer escalador que se preze!
2º
d i a
a...v e z...d o s...g r i n g o s
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
O segundo dia da Mostra contou com uma surpresa, o que era para ser somente uma palestra da escaladora curitibana Roberta Nunes sobre a conquista que ela realizou na Groelãndia com a escaladora espanhola Cecilia Buil, acabou se transformando em uma sessão de cinema sobre o mesmo tema. Hidrofilia é o nome do filme, de Jesús Robles, e o nome da via conquistada no maciço Thumbnail em seis dias de escalada - sem fixar cordas - em agosto de 2003. Com 1.620 m de extensão e 31 enfiadas, a via Hidrofilia (graduada em VI, 6c+/7a, A2+, tabela francesa) é considerada a mais longa conquista de via de escalada feita por uma cordada feminina. Parte da aproximação da base da montanha, Roberta e Cecília enfrentaram 31 km remando pelo mar em caiques até chegar no fiorde Torssuktak, onde fica o Thumbnail, costa sul da Groelândia. Parece que foi a parte mais desagradável e perrenguenta da expedição, visto as condições hostis no mar. Caso o caique virasse, era preciso apenas 3 minutos dentro d´água para causar uma eventual morte do infeliz que virou. E fora que a qualquer momento uma baleia orca faminta e assassina (já dizia o nome do famoso filme) poderia transformar o grupo, ou parte dele, em um apetitoso banquete. Parece que índice de morte causado por baleias orcas é alto na região, habitada principalmente por esquimós. Ou seja, pobres esquimós constituem uma parte da cadeia alimentar dos bichanos. O filme é bem interessante, bem documentado e possui com imagens belíssimas. Não falta informação, nem humor, nem dramaticidade (tem até um trecho meio Bruxa de Blair na volta da equipe para o campo-base no último dia de escalada). E ainda conta com um tempero brasileiro em terras gringas! o contraste entre a sisuda Cecilia e a irreverência de Roberta é um contraponto interessante do filme.
A primeira sessão mostrou um documentário sobre o escalador Derek Hersey (perdi esse, mas disseram-me que eram bem legal). A segunda sessão contou com um documentário que seria bem mais interessante, caso a voz em off fosse de outra pessoa que não fosse a do diretor e produtor do filmes, o escalador veterano Charles Houston. De um tédio hipnotizante, a voz monocórdica do escalador não demonstrava e não passava para o público nem um terço da emoção de todas as imagens e filmes de época mostrados na tela do cinema. Se ele estivésse lendo uma bula de remédio o efeito seria o mesmo! E olha que entre as estórias contadas por ele, encontrava-se um dos grande épicos da história do montanhismo: uma expedição americana que tentou escalar o K2 em 1953, um relato incrível de tragédia, companheirismo e muita bravura. Bem diferente dos relatos emocionantes e divertidos de outros escaladores veteranos vistos na Mostra, como os que aparecem nos filmes estrangeiros Eiger North Face e Le Cervin fait son Cinéma e nos brazucas Cinqüentona Galotti e Desafio no Penhasco Fantasma. Enquanto excelente montanhista, Houston é péssimo narrador! Para quem sofrer de insônia, aconselho fortemente uma gravação do áudio do filme.
Se todo o resto da mostra do segundo dia fosse ruim, teria valido a pena esperar o último filme do dia, que tinha o emblemático título de So far West, It´s Quicker to Go East to Get There de apenas 7 minutos, dirigido, produzido e estrelado pelo escalador britânico e figura Leo Houlding. O cinema caiu na gargalhada com as sessões pouco convencionais de bouldering do filme. Muita gente no final da sessão, não pôde deixar de se lembrar de um conhecido escalador carioca, que costumava escalar vias com uma mão só, ou somente com os pés, ou com as mãos amarradas, ou com os olhos vendados, entre outras divertidas e, em alguns casos, pouco funcionais viagens!
3º
d i a
f i m...d a...m a r a t o n a
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
O terceiro dia foi também concorrido, com ingressos esgotados e muita gente do lado de fora na primeira sessão. O filme Eiger North Face é bem interessante ao mostrar a tentativa (coroada de sucesso) de dois escaladores, Stephan Siegrist e Michal Pitelka, de escalar o face norte do Eiger com os mesmos equipamentos utilizados na primeira ascenção dessa face em 1938. Da bota ao piolet, inclusive vestimentas, tudo foi confeccionado conforme os padrões e materiais da época. A única concessão foi na confecção da corda, que contou com um reforço de nylon na alma. Mesmo assim, em testes simulados a performance da corda mostrou-se desastrosa: na simulação de uma queda de 5 metros com um peso de 80kg, ela se arrebentou feito barbante de enrolar pacote de pão em padaria. Terror! A cara dos escaladores na hora é impagável. Só uma coisa meio que estraga um pouco o mérito da ascenção: uma latinha sem vergonha de Red Bull que os dois sorvem no meio da escalada! Assim não vale! Depoimentos interessantes, inclusive do famoso Heinrich Harrer, autor do famoso livro Sete Anos no Tibet (ele ainda está vivo!), compõem o filme. Imagens belissímas captadas através de uma "cordada moderna", que acompanha os escaladores até o cume e também imagens aéreas e panorâmicas de tirar o fôlego, fazem parte do excelente documentário. O único porém é o sotaque dos dois escaladores. Para quem sabe alemão, dá vontade de se matar!
A animação alemã Das Rad é muito boa! Não se trata de escalada, mas tem dois personagens que são feitos de um monte de pedra. E daí? Original e divertida, a produção deu uma valorizada na mostra, com sua engraçada "variação de tema".
A primeira sessão terminou com as façanhas de Biscuit, "a Lynn Hill do mundo canino". Filme divertido estrelado por uma cadelinha meio possuída e louca por escalada em rocha. Um espanto a performance do louco bichano, que deixaria provavelmente muito escalador que anda com "duas patas" envergonhado.
Na segunda sessão, o documentário Le Cervin fait son Cinéma traz imagens históricas impressionantes e algumas reconstituições dramáticas em torno da primeira ascenção do Monte Cervino (ou Matterhorn) na região de Zermatt nos Alpes Suiços. O filme peca por uma dose meio cansativa de sentimentalismo, mas ganha bastante em mérito com suas imagens de arquivo históricas. Mesmo assim, o que era aquela "orquestra de sininhos"?!
E finalmente a mostra fecha com um maluco meio esquisito, que segundo ele mesmo, não é muito bom escalador e boulderista, mas por algum motivo divino misterioso, é muito bom em botes! E é mesmo! Não fechou com chave de ouro, porém com graça e bom humor.
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
Em resumo, valeu a pena enfrentar essa maratona de 3 dias de filmes. E para o próximo ano fica aqui a dica: câmera na mão e idéias boas na cabeça, galera! Produções nacionais são um sucesso, como mencionado acima, talvez pelos motivos apresentados e talvez por outras questões. O melhor da Mostra, apesar de algumas das maravilhosas produções gringas dos dias posteriores, foi justamente a Mostra Brasil. E caprichem, por favor! Afinal de contas, além do nosso público ser exigente, caso houver uma outra possibilidade de participar da seleção de um Banff da vida, nada melhor do que mostrar para o mundo com estilo, qualidade e muita "malemolência", o melhor que o Brasil tem a oferecer em termos de escalada.