Raquel Guilhon na via Bambam . Campo Escola 2000 - Floresta da Tijuca, RJ - Foto: André Neves

A Escalada Feminina no Brasil

Texto: Antônio Paulo Faria (2002) . Posfácio: André Neves (2005)
Publicado originalmente na Fator 2 nº 16 (Fev/Mar 2002)


Fotos: Arquivo Fator 2, Arquivo ViaCrux, André Neves, Alê Silva, Antônio Paulo Faria, Flavio Daflon,
Frederico Almeida, Gisely Ferraz, Mônica Pranzl, Marcela Chaves, Márcio Bortolusso, Morvan Müller, Silvia Bahadian


Todos os direitos sobre o texto e fotos são reservados.

15/03/02: Se você ainda é um noviço na escalada, pensa que isso é para homens e acha que lugar de mulher é ficar em casa pilotando fogão, é melhor você mudar de idéia ou, se preferir, se mude para o Afeganistão, seu talibã!!! No passado, a sociedade em geral considerava que escalada era uma atividade para macho, mas muitos leigos desculturados ainda pensam assim. Para a minha surpresa, na minha primeira escalada eu fui guiado por uma mulher, aliás uma bela mulher. Isso foi em 1981, durante o curso básico de escalada que fiz no Centro Excursionista Brasileiro. A via era o Edmundo Braga (3º), na imponente Pedra do Perdido do Andaraí (Rio). Na época, eu achei a escalada muito “exposta”, passei maus momentos e aquela “Mulher Maravilha”, que eu acho que se chamava Marilene, eu não lembro, escalava tranqüila, segura e eu não entendia como ela podia escalar tão “bem”.





Depois de eu ter sido apresentado devidamente ao esporte, fui entender que as mulheres podem escalar até melhor que os homens. Em toda a história do montanhismo sempre existiu mulheres escaladoras, basta pegar os antigos livros de relatórios de escalada de Clubes do Rio de Janeiro, como o CEB, o CERJ, o CEC, etc, principalmente entre as décadas de 50 e 70, para ver vários nomes de mulheres, inclusive como guias. Talvez no Paraná seja possível constatar o mesmo. Aliás, a primeira escalada técnica feita no Brasil pode ter sido realizada por uma inglesa (Henrietta Carsteirs), em 1817, no costão do Pão de Açúcar. Mas eu não conheço os detalhes dessa aventura e esta história precisa ser resgatada. Por outro lado, muitos consideram que a conquista do Dedo de Deus, em 1912, foi a primeira escalada técnica brasileira, talvez por ter sido melhor documentada, ou talvez, pelo simples sentimento de patriotismo ou quem sabe, machismo. Porém, o Costão é inegavelmente uma escalada técnica, seja qual for a classificação utilizada.

Os leigos pensavam (muitos ainda pensam) que para escalar, além de ter que ser homem, o cara tinha que ser alto e ter muita força para se puxar pela corda e puxar também pelo braço os participantes - uma mulher não poderia fazer isso porque são muito fracas. Certamente algum dia alguém já te perguntou como é que você coloca a corda lá no topo do morro, porque acha que escalar é subir pela corda. Eu não gostava de dizer que eu escalava por causa dos meus 1,64 m de altura. Ironicamente, hoje alguns dos melhores escaladores têm estatura parecida e o mais incrível ainda é que um dos melhores escaladores eleitos de todos os tempos mede apenas 1,54 m e é uma mulher, a americana Lynn Hill, e a melhor escaladora atual de vias esportivas é também outra americana de apenas 1,52 m, a Katie Brown, que tem escalado 10b praticamente à vista.





Até a década de 80, que foi quando o esporte mais se desenvolveu, não eram muitas as mulheres que escalavam no Brasil. Eram raras as que guiavam e se destacavam, como: Marcela Schiavo, Helena Balot, Valéria Confort e Lúcia Duarte, entre outras mais antigas. Na época, todos que escalavam freqüentavam clubes e a maioria ía por causa da vida social. Foram muitas as mulheres que começaram a escalar pelos clubes, mas também arrumaram namorados ou maridos (nos clubes ou fora deles), a maioria se acomodou, outras pararam. Muitas simplesmente sumiram, nunca mais colocaram os pés na rocha.

Durante a década de 90, a maioria das escaladoras se formou fora dos clubes. Lembro de uma garota sapeca, de Belo Horizonte, que apareceu na Serra do Cipó logo no início dos anos 90. Ela era bonitinha e com poucos meses de escalada já se atirava nas vias difíceis. Conseguia escalar lances impressionantes e tinha uma resistência formidável, chegou até a ganhar um campeonato. O pessoal logo deu-lhe o apelido de “Lynn Hill do Sertão”, porque era loira e tinha olhos claros, mas se chamava Inês. Ela simplesmente desapareceu tão rápido como apareceu. É uma pena porque o talento dela é raríssimo. A Ritinha foi outra que escalou durante alguns anos e parou. Tinha uma técnica refinadíssima e foi a primeira brasileira a escalar (de corda de cima) um oitavo grau técnico - Urubu Mestre (8c), em 1991.





Como a Inês e a Ritinha, algumas outras que tinham potencial invejável também pararam, provavelmente descobriram a simples felicidade de ser mulher, ou mãe. Isso é culpa da natureza! Nós, os machos?… Ficávamos torcendo para aparecer mais escaladoras bonitas e gostosas neste esporte bruto, dominado por homens. As recém-chegadas eram disputadas. Levou um longo tempo para a situação melhorar um pouco. Depois de passar algumas temporadas escalando nos EUA e na Europa, eu pude ver algumas mulheres cinqüentonas guiando vias de oitavo grau que eu mal podia subir. Percebi que muitas tinham a mesma paixão pela escalada tal como muitos escaladores veteranos e não consideravam o esporte como uma coisa passageira, uma moda.

Crédito também deve ser dado para algumas colegas que continuam escalando no Brasil após tantos anos, como a Miriam Garrido (54 anos), que escala há várias décadas e continua subindo vias de 6 grau. A Jana Menezes, que é avó e começou a escalar depois que se divorciou, diz abertamente que trocou uma “mala” por uma mochila, mas sendo que a primeira era o seu ex-marido e a segunda, muito mais agradável, é a sua mochila de escalada, só que essa ela tem prazer de carregar nas costas. Desde que começou a escalar, há muitos anos, tem sido uma escaladora assídua e se apaixonou de novo… pela rocha.

Além da Miriam e da Jana, existem outras que escalam há muito tempo e são senhoras com carreiras brilhantes. Pela leveza e flexibilidade, além de outros atributos, as mulheres tendem a se adaptar melhor às vias técnicas e normalmente elas se saem melhor que os homens nesta modalidade. Nas escaladas negativas, de uma forma geral, os homens se destacam um pouco mais. Isso me lembra o Primeiro Campeonato Sul Americano realizado em Curitiba, em 1989. A competição era dividida pelas classes feminina e masculina. Algumas das melhores escaladoras brasileiras da época participaram, como a Kátia Torres e a Lílian White, mas elas não se adaptavam muito bem às escaladas esportivas porque não treinavam para isso, mesmo porque este tipo de escalada ainda estava começando no Brasil (ler A História da Escalada Esportiva no Brasil, na Revista Fator 2 nº 13 e 14).





Durante a competição eu escalava uma via e logo depois ia correndo para ver as mulheres escalar. Foi uma grande decepção, elas caíam em todas as vias, incluindo nas que não tinham negativos. O Ronaldo Frantzen (Nativo) ficou muito chateado porque ele tinha planejado todas as vias com muito cuidado e as mulheres não conseguiam subir nenhuma, com exceção da argentina Sílvia Fitzpatrick, que escalou todas e com muita facilidade. Ela estava muito à frente das concorrentes brasileiras. O Ginásio do Palácio de Cristal estava cheio e o público aplaudia muito quando ela completava cada uma das vias. Ela morou no Rio de Janeiro e treinava seriamente, coisa que as brasileiras não faziam.

A etapa feminina terminou e depois foi a vez da final masculina. As vias dos homens eram muito mais difíceis que as feitas para a etapa feminina, sendo que a via final foi completada apenas por três escaladores. A Sílvia foi perguntada se queria escalar a final masculina sem compromisso, porque já tinha ganho com sobras o campeonato feminino e o prêmio de mil dólares. Ela topou. Se concentrou na base do muro e começou a subir agarra por agarra, num bom estilo até completar. Nós, os escaladores e o público no ginásio ficamos de boca aberta e aplaudimos entusiasmados. Alguns anos depois ela foi morar na Inglaterra e se transformou numa das melhores escaladoras daquele país.





Durante boa parte dos anos 90 a Kátia Torres se destacou como sendo a melhor escaladora brasileira, possuía uma técnica excelente e era arrojada (ela ainda escala). Começou aos 12 anos e tempos depois guiava vias difíceis. Em 1986, quando tinha apenas 14 anos, ajudou o Alexandre Portela e o Sérgio Tártari na conquista da Terra de Gigantes (4º IVsup A4), na Pedra do Sino, que é o Big Wall brasileiro mais respeitado. Em 1990, guiou o Crazy Muzungus (7º VI A2), alternando com o Alexandre Portela, outro big wall da Serra dos Órgãos.

Em 1988, a Kátia Torres, a Lílian White, a Valéria Confort e a Simone Duarte foram as primeiras mulheres a conquistar uma escalada no Brasil. Elas saíram de caiaque da Praia de Ipanema (RJ) e chegaram à Ilha Cagarra, que fica à cerca de 5 km da costa para abrir a via Sereias. Foram necessárias quatro idas à ilha para completar o trabalho. A Lílian quebrou o pé e foi substituída pela Tereza Aragão, e o grupo continuou a conquista. Na última investida, a Kátia, quando tinha apenas dezesseis anos, ia na frente conquistando e parou num ponto onde achava que deveria ter uma proteção fixa. Escolheu um lugar que achou razoável, encaixou cinco cliff-hangers nas agarras e se pendurou, para depois fixar o grampo. Ela achava que os cliffes estavam seguros. Normalmente são colocados um ou dois e se forem encaixados corretamente agüentam firmes, exceto quando as agarras quebram. Mas a ilha tem o nome Cagarras porque é quase toda coberta por fezes de pássaros, ou seja, é tudo cagado e tem uma coloração branca, tecnicamente conhecida como guano. Ela estava pisando sobre aquela merda branca e seca. Logo depois também ficou na merda no sentido figurativo, porque, de repente, sem nenhum aviso prévio os pés escorregaram e os danados dos cliffes saíram. Ela despencou paredão abaixo uns oito metros - blém, blém, ting, blong, ting, ting, bonc, crac - ela quebrou o pé, mas a escalada foi terminada pelas companheiras.





Hoje em dia não é raro ver uma cordada feminina nas paredes brasileiras. Podemos encontrá-las em todos os estados brasileiros onde o esporte é mais evoluído, mas as que mais se destacaram nas paredes na década de 90 foram combinações de duplas feitas por Kátia Torres, Lilian White, Mônica Pranzl, Mônica Oliveira e Silvina Stefano, que já subiram vias como As Lacas Também Amam (7c), Waldo (7c), Pássaros de Fogo (7a) etc. Reverência especial deve ser prestada à curitibana Roberta Nunes. Ela é considerada por muitos a escaladora brasileira mais completa da atualidade: escala rápido, guia vias difíceis tanto com proteções fixas como móveis, inclusive em situações delicadas. Já guiou várias vias brasileiras de respeito e também vias mistas de rocha/gelo na Patagônia, onde passou algumas temporadas e, inclusive, participou da abertura de uma via nova na Agulha Mermoz.

Só para citar alguns exemplos brasileiros, em 1998, ela e a Rosane Nicolau escalaram a Decadence avec Elegance (5º VI+ A0 ou 7c) Pico Maior de Friburgo, em apenas 4 horas, sendo que o tempo médio é de seis horas. Ela guiou uma das poucas repetições do Velho Oeste (7b), no Pão de Açúcar, cordada feita com a Mônica Pranzl. Em Yosemite, foi a segunda mulher mais rápida na Regular Route do Half Dome, fez junto com José Pereyra em 7 horas. Foi a primeira mulher a atravessar a cabulosa tirolesa Slack Line em Yosemite. Adrenannnnte!!! Fez ainda alguns big walls sozinha, além de muitas outras aventuras. No início deste ano ela chegou ao topo do Fitz Roy, na Patagônia [Nota do Editor: na realidade Roberta não fez o cume da montanha, chegou quase lá: tentou o primeiro pela Afanassief com 40 cordadas realizadas mas faltaram 5, e depois pela Franco Argentina, faltando 150m do cume]. Ela reclama de não encontrar escaladoras brasileiras que topam fazer o que ela faz. Pô, também pudera!!! Se continuar nesse ritmo não será fácil encontrar nem mesmo um parceiro. Ela vai longe!





Nem é preciso mencionar que, até o momento, nenhuma escaladora brasileira se destacou tanto em grandes paredes como ela e a Kátia Torres. Esperamos ansiosamente que novos talentos apareçam. Agora só falta aparecer talento para alta montanha, são poucas as brasileiras com experiência, como a Helena Hartman e a Helena Pinto Coelho, que já andaram tentando picos de 8.000 metros no Himalaia (Everest e Cho Oyu), além de experiências no Alaska (Denali), nos Andes (Aconcágua) etc. Atualmente, a maior candidata é a própria Roberta Nunes, que já tem experiência na Patagônia e é uma escaladora que tem técnica, força, resistência e muita coragem.

A Mônica Pranzl é outra que merece destaque no “Paredão da Fama”. No final da década de 80 subia apenas vias de aderência, só de “onda”, mas com muito estilo, só porque o namorado e os colegas escalavam. Depois, surpreendentemente, tomou gosto e foi para as paredes maiores. Em junho de 1992, nós dois fomos escalar em Salinas (RJ) e ficamos na casa do Sérgio Tartari, que fica à uma hora e meia de caminhada da base do Pico Maior de Friburgo (onde ficam as maiores vias brasileiras). Durante os quatro dias que passamos lá saíamos todos os dias da casa do Sérgio para escalar: o Arco da Velha (6º VII E3), a Roberta Groba (5º V+ E3), a Leste (5º A0 ou 6+ E3) e a Fata Morgana (5º V E3) um total de aproximadamente 2.400 metros de escalada, uma maratona que até hoje eu fico impressionado e ela se saiu muitíssimo bem.





Alguns anos depois veio a fase “preguiçosa” em que ela só queria saber de falésia. Durante esse período ela quebrou vários recordes feminino de escalada esportiva em rocha no Brasil. Foi a primeira a encadenar (guiar sem queda e sem parar), todos os graus atléticos de 8a a 9c. Por exemplo, em 1992 guiou o Ácido Fórmico (8a); em 1996 foi a vez do Brain Lock (9a) e por último, em 2001, guiou o Filezão (9c) situado na Barrinha (Rio). Tem ainda em seu currículo vias como Bam-Bam (9a/b), Sombras Flutuantes (9b/c), Heróis da Resistência (9c), Morfina (9a/b), Filezinho (9b), dentre outras. Tem também uma longa lista de vias difíceis em parede, mas não guia nessas condições por causa de alguns acidentes que sofreu. Durante essa fase ganhou vários campeonatos realizados em muro, mas as competições se tornaram difíceis por causa da evolução das concorrentes e ela resolveu voltar devidamente para a sua casa, a rocha e manter o título de melhor escaladora esportiva do país. A Vanessa Valentim e a Gisely Ferraz, entre outras, também merecem destaque nesta modalidade. Neste verão a Vanessa também encadenou o Heróis da Resistência (9c), na Serra do Cipó.

Com a popularização das vias esportivas, onde normalmente predomina força/resistência, aumentou o número de escaladoras e este impulso teve ajuda importante dos muros de escalada, principalmente em São Paulo. Hoje, são muitas as mulheres que se destacam nesse estilo, algumas têm muito talento. As melhores escaladoras brasileiras de muro certamente estão em São Paulo, como a Paloma Cardoso e a Janine Cardoso.





As brasileiras conquistaram com muito esforço seus espaços no mundo da escalada e isso é inegável. Apesar da maioria dos escaladores só pensar em sexo e rocha, muitos em rocha e sexo e outros… só em rocha, existe um crescente respeito em relação às escaladoras. Para quem ainda não se convenceu, basta apenas assistir, como exemplo, a Mônica Pranzl, a Roberta Nunes ou a Paloma Cardoso escalar. O time formado pelas escaladoras citadas neste texto e outras que não foram citadas, escala muito mais que a grande maioria dos escaladores masculinos, principalmente se for levado em consideração que, no universo da escalada as estimativas apontam que as mulheres são apenas algo entre 10 e 20%. Eu só queria saber quem foi o energúmeno que disse que mulher é sexo frágil.

A situação melhorou, tem mais mulheres escalando na rocha, mas ainda pode melhorar mais. Bem vindas sejam as mulheres, o esporte agradece e os homens também.


Escalada Feminina no Brasil - 3 Anos Depois...
[Autor: André Neves - 23 de Outubro de 2005]


O artigo do Antônio Paulo Faria sobre a escalada feminina no Brasil foi escrito em 2002. De lá para cá, a grande maioria das escaladoras "modernas" citadas no texto continuam na ativa (e também algumas "das antigas"). Roberta Nunes continua mais do que nunca motivada, abrindo inclusive a maior via de conquista feminina na Groelândia e sendo a primeira sul-americana a escalar o El Captain em Yosemite (EUA) em um dia. Janine Cardoso é a melhor competidora de escalada esportiva no momento, com resultados tímidos, porém inéditos e cada vez melhores nos Mundiais de Escalada dos últimos anos. Mônica Pranzl continua uma das melhores em rocha, seu último feito de destaque foi mandar em livre uma via de 10a na Barrinha (RJ), fato do qual ela nunca fez questão de fazer alarde, pois o estilo da cadena, que foi em top-rope, para ela não teve muito mérito. Recente no clube da maternidade, Mônica no momento tem certamente outras prioridades do que encadenar em "estilo decente" uma via de 10a, mas já voltou a escalar e provavelmente forte assim que o rebento, o trabalho e uma interminável obra em casa derem mais folga para a exausta escaladora!

Não podemos nos esquecer das mulheres escaladoras que também têm uma participação ativa "por trás dos bastidores", ou seja, fora da rocha. Temos a Larissa Cunha, uma das organizadoras da edição nacional do Festival Banff, a Priscila Botto, diretora do documentário 'Cinqüentona Galotti', com mais um filme saindo no forno, o 'Júnior', que será exibido no Festival desse ano, a Marcela Chaves, que desenvolve um trabalho muito bonito de fotografia de montanha e escalada, a Patrícia Mattos que idealiza e organiza excelentes campeonatos, a Cintia Adriane, parceira e colaboradora incansável do Flavio Daflon (e também do Delson Queiroz) nos excelentes Guias de Escaladas da Urca e da Floresta da Tijuca, a Kika Bradford, entre outros exemplos.

Longe parece a velha e absurda idéia aqui no Brasil de que escalada para boa parte das mulheres era apenas um passatempo, até mesmo um modo de ficar mais tempo perto do namorado escalador. Em parte é, como assim também é para alguns homens, somente um passatempo. Ou então de que era uma raça abrutalhada, sem feminilidade, pois afinal se dedicavam a um esporte "de macho". Hoje em dia, mais do que nunca, as garotas procuram o ambiente da rocha por opção e gosto pessoal e muitas delas acabam se tornando excelentes escaladoras, melhores em muitos aspectos do que muito marmanjo fanfarrão. E ainda trabalham, se casam, têm filhos. E mais, têm filhos e logo, logo podem ser vistas novamente na rocha, como é o caso de Janine Cardoso e Mônica Pranzl, mamães recentemente.

E o Antônio Paulo estava certo quando disse que tem mais mulheres escalando na rocha, o que sem sombra de dúvida dá um charme adicional às nossas escaladas. Escalar com garotas é divertido, além da coragem, elas têm bom humor, são observadoras e são mais graciosas na conversa, na fala, nos movimentos , o que é sempre bom de observar e é um alívio em alguns dias que você não está muito afim de olhar para a cara sonolenta de um barbudo. Eu mesmo posso dizer que algumas das escaladas mais prazeirosas que tive na vida foi na companhia de mulheres.

E a propósito, assim como o Antônio Paulo, também foi uma mulher que me levou para o mundo da escalada, a mergulhadora e eventual escaladora Niva Brandileone. Além de estudarmos juntos na PUC, trabalhávamos juntos no mesmo andar em uma multinacional em Botafogo, com direito a uma vista espetacular para o Pão-de-Açucar, diga-se de passagem. Lembro perfeitamente do dia em que ela me chamou para ir até a baia (é, o nome horrível é baia mesmo) dela e na moita sem os outros perceberem (afinal estávamos em horário de trabalho!) ela foi retirando de baixo da mesa todo o material de escalada que ela praticamente havia acabado de comprar: corda, baudrier, costuras, freios, capacete, e eu maravilhado com aquilo tudo. E ela dizendo: "André você TEM que escalar, é a sua cara!". Como sempre, não resisti a um apelo feminino e se não fosse por ela, provavelmente não estaria aqui agora.

Vamos então incluir na lista de garotas citadas no texto alguns outros nomes, alguns com destaque, outros nem tanto, o que no caso, não importa muito, o que importa é que elas existem, são talentosas e esbanjam coragem e charme como poucas mulheres nesse mundo, na rocha e no chão.

São elas: Marcela Chaves, Wanja Antunes, Silvia Bahadian, Eliza Bonner, Patricia Duffles, Viviane Fernandes, Raquel Guilhon, Bianca Castro, Thais Quacchia, Adriana Lima, Daniela Caride, Larisssa Cunha, Juliana Melo, Cris Jorge, Ester Binzosky, Raquel Teixeira, Kika Bradford, Flavia Rossler, Sibèlle Urben, Julie Bagnati, Adriana Mello, Priscilla Botto, Patricia Mattos, Daniela Caride, Camilla Santos, Rosane Camargo, Cintia Adriane, Cris Costa, Francine Machado, Gabriela Saliba, Rosane Nicolau, Patricia Poyares, Ju Peterz, Rosângela Gelly, Mara Souza, Cristina Bicalho, Ana Luiza e Thais Makino, e tantas outras. A lista é imensa, não caberia toda aqui. Resta continuar dando boas-vindas para as garotas. Que venham e em grande número!

Agradecimentos: Antônio Paulo Faria, Flávio Daflon, Cintia Adriane, Janine Cardoso e Márcio Bortolusso.

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