Luzia Caracciolo no Cume do Dedo de Deus (detalhe da foto)
Foto: Arquivo do Clube Excursionista Brasileiro (CEB)

Luzia Caracciolo
Primeira Mulher no Cume do Dedo de Deus

Texto: Daniela Caride & André Neves
Fotos: André Neves, Cora Rónai, Daniela Caride, Mônica Pranzl & Arquivo CEB

Todos os direitos sobre o texto e fotos são reservados.

25/10/05: Dia 27 de setembro passado, a sócia honorária do Centro Excursionista Brasileiro (CEB), a escaladora Luzia de Freitas Caracciolo, faleceu aos fabulosos 91 anos de idade. Aos 19, Luzia se tornou a primeira mulher a chegar ao cume do famoso Dedo de Deus, localizado no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro – em uma época em que o montanhismo e a escalada em rocha eram atividades de domínio masculino, ainda mais no Brasil. Para a sociedade não soava muito bem uma mocinha de 19 anos se embrenhar no mato para chegar à base de uma montanha e escalar na companhia sempre de homens. Imaginem o espanto que isso devia causar.


E não foi a primeira vez que uma mulher causou espanto na escalada brasileira. A inglesa Enrieta Carstiers, em 1817, subiu a Face Leste do Pão-de-Açúcar, se tornando a primeira pessoa a conquistar o cume desta montanha. Como é de praxe, Enrieta fincou uma bandeira britânica ao chegar no topo, o que causou agitação na cidade do Rio de Janeiro. A audácia do gesto deve ter provavelmente despertado sentimentos nacionalistas dos colonizadores portugueses, ainda mais porque havia partido de uma mulher, o que na época também era motivo de escândalo. Motivado possivelmente pelo nacionalismo, um soldado português teria subido logo depois o Pão-de-Açúcar pelo mesmo caminho e substituído a bandeira britânica pela de seu país.

Com a mesma ousadia, Luzia escalou o Dedo de Deus, decisão tomada quando soube que um grupo de amigos iria fazer uma investida ao cume do pico, onde nenhuma mulher até então havia colocado os pés. “Não queria que uma estrangeira levasse o título de primeira mulher a subir o Dedo de Deus”, revelou Luzia em uma entrevista concedida ao site O Eco. Para ser aceita no grupo, ela precisou passar por alguns testes: subiu primeiro a trilha da Pedra da Gávea e, na semana seguinte, enfrentou a Chaminé do Morcego, no Morro do Cantagalo. Aprovada nos testes, só restava então o desafio do Dedo de Deus. “Foi uma escalada bem difícil. A gente não pensava nos riscos que corria. Desafiávamos o perigo para só depois perceber o que tínhamos feito”, lembrou. E sempre de saia e calção por baixo, como as moças usavam então. “Mulher de calça era chamada de mulher-homem”.


Reparem no desenho
da camiseta de dona Luzia!


Dona Luzia competindo
em Riccione na Itália


Dona Luzia sendo
homenageada no CEB

O pico do Dedo de Deus fica entre o Rio de Janeiro e Teresópolis, mais precisamente no município de Guapimirim, para onde Luzia e seus amigos, alguns dias mais tarde, embarcaram no trem para Teresópolis. Já na serra, o grupo de escaladores pediu ao maquinista que desacelerasse, arremessou as mochilas e saltou para fora do trem. Eram 8 da manhã quando começou mais uma etapa da aventura de Luzia e seus amigos – desta vez de calça, já que não havia mais ninguém na trilha.

O cume do Dedo de Deus foi conquistado pela via Teixeira (3º III+) em 8 de abril de 1912, pelo pernambucano José Teixeira Guimarães, acompanhado por Raul Carneiro e mais os irmãos Oliveira: José Américo, Accacio José e Alexandre José. Essa mesma via, 21 anos mais tarde, foi utilizada para a ascensão do grupo de Luzia montanha acima, o que foi feito com com bastante dificuldade. No lugar das cordas de sisal, que davam segurança aos escaladores desde a conquista do pico, o grupo já usava cabos de aço, sendo que muitos deles foram fixados na esclada em que Luzia participou. O equipamento era bastante precário em comparação com o atual. Ainda não havia sapatilhas de escalada com solado de borracha. Escalava-se com sandálias de sola de corda trançada, chamadas “china-pau”, segundo ela. Para percorrer as trilhas fechadas, botas com pregos na sola.

Às 8 horas da noite de 30 de setembro de 1933, Luzia atingiu os 1.675 metros do cume do Dedo de Deus com seus quatro amigos: David Couto, Mario Barroso Filho, Morgan Thomas e Alfredo Mello. Eles eram conhecidos como o “Grupo do Prego” no Centro Excursionista Brasileiro (CEB), o mais antigo clube de montanhismo da América do Sul. Seu irmão e uma amiga que os acompanhavam desistiram da escalada e precisaram pernoitar num platô. “Minha mãe só deixou que eu fosse nessa aventura se meu irmão e outra mulher estivessem comigo. A menina não agüentou e teve que parar”, explicou.




Era noite de lua cheia e por sorte não fazia muito frio. Agitados e animados, eles passaram a noite no topo da montanha. “Minha água vazou do cantil e molhou o cobertor que levei. Mesmo se estivesse seco, eu não teria conseguido dormir. Ninguém dormia”. Às 2h da manhã, Luzia descobriu que sua conquista foi pioneira por um triz: um outro grupo atingiu o cume do Dedo de Deus. E nele estava uma mulher alemã.

Foi assim que Luzia de Freitas Caracciolo tornou-se parte da história do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e do montanhismo brasileiro. O Parque, por sua vez, também ficou gravado na história de Luzia não só pela conquista daquela noite mas também porque se casou com um dos seus companheiros de escalada: Morgan Thomas. A lua-de-mel não poderia ter sido em outro lugar e, em julho de 1937, Luzia e Morgan voltaram ao cume do Dedo de Deus.

Luzia fez várias outras escaladas na região do parque e arredores. Só parou de escalar quando nasceu seu primeiro filho, em 1940. Mesmo deixando o montanhismo, não conseguiu ficar parada por muito tempo. Além de velejar por muitos anos, Luzia começou a praticar natação, esporte a que se dedicou exclusivamente nos últimos anos de sua vida, acumulando diversas medalhas. Sua última conquista nesse esporte, espantosa por sinal (parece que espanto é uma palavra recorrente no caso de Luzia), foi em junho de 2004 no 10º Campeonato Mundial de Masters de Natação em Riccione, na Itália, em que conquistou em sua categoria cinco medalhas de ouro, nas modalidades de 200, 100 e 50 metros costas, e 100 e 50 metros peito.





Luzia costumava dizer que a dedicação aos treinos e competições acabava comprometida pelos afazeres da rotina, como bordar, fazer bolos, cuidar da casa no alto do Cafubá, em Piratininga, Niterói, e de seus três cachorros. “Meu tempo é pouco para fazer tudo”, disse durante a entrevista. Mas seus comentários não eram queixas, garantia. Luzia emanava uma energia vibrante e demonstrava uma grande alegria de viver. Seu segredo, segundo ela, era continuar reinventando a vida, de uma maneira simples e saudável: “Mordomia deixa a gente mole. A gente não pode é parar!

Em tempo: Luzia faleceu poucos dias antes do seu feito completar 72 anos. Certamente outras mulheres escalavam em 1933, mas somente dona Luzia teve o gostinho de ser a primeira garota no cume do Dedo de Deus.

Eu conheci a Mulher Maravilha:
Luzia Caracciolo, que adormeceu para sempre dia 27, aos 91 anos

Talvez eu tenha até conhecido dona Luzia Caracciolo um pouco antes, mas só descobri que criatura extraordinária era a amiga da Mamãe quando, em 1994, aluguei um carro nos EUA e fui, junto com meu filho Paulinho, assistir ao Campeonato Mundial de Natação Masters em Montréal. Na época Mamãe estava com 70 anos e dona Luzia, com 80 -- mas tinham, ambas, muito mais energia do que o Paulinho e eu juntos. Depois de participar das várias provas em que estavam inscritas, ainda rodavam pela cidade, curtiam o festival de jazz, aproveitavam a noite.

O hotel em que estávamos, reservado através de uma agência de viagens bem-intencionada mas mal informada, ficava em plena zona. Paulinho e eu vivíamos de pé atrás com a vizinhança de junkies e tipos esquisitos; Mamãe e dona Luzia apenas achavam que o Canadá era mesmo um país estranho, muito diferente do Brasil.

Nossa última noite na cidade foi típica. Depois de fazer as malas, elas descobriram que ainda precisavam comprar presentes para algumas amigas. Eram três da manhã e, na esquina, havia um misto de drogaria e supermercado 24 horas. Pois lá ficaram as duas, em seus uniformes esportivos, examinando cuidadosamente os vários tons de rosa dos batons e esmaltes que queriam, para completo espanto dos habitués da casa, cobertos de tatuagens, piercings e correntes. Mal sabiam eles quem eram aquelas velhinhas inocentes, de aparência frágil...

Entre outras glórias, dona Luzia foi a primeira mulher a escalar o Dedo de Deus, nos idos de 1933, quando senhoras não faziam essas coisas. A energia que a moveu naquela escalada ainda estava muito presente no ano passado, quando, aproveitando uma brecha no Campeonato de Natação Masters em Riccione, Itália, fomos a San Marino, que é uma subida só.

Como de hábito, ela e Mamãe dispararam na frente, enquanto eu seguia atrás, esbaforida; e como em Montréal, dez anos antes, a colheita esportiva foi farta. Dona Luzia voltou ao Brasil com cinco medalhas de ouro.

Na terça passada, dia 27, feliz e cheia de idéias em relação à nova casa que construía, dona Luzia foi dormir — e não acordou mais. Estava com 91 anos. Vai fazer muita falta no próximo Mundial de Masters, no ano que vem, em São Francisco, para o qual já estava fazendo planos com as amigas, as maravilhosas sereias vintage da nossa natação masters.

Viveu como pouca gente, e sabia disso:

— Fiz o que eu queria. Prestei atenção na vida e fui recompensada.

Cora Rónai - Jornal O Globo, Segundo Caderno, 06/10/2005


Existe uma Luzia Caracciolo "de calças" nos EUA. O nome dele é Stimson Bulitt, um senhor de uns 85 anos que manda muito bem em rocha, sobretudo escalada técnica. Confiram o texto 'Terceira Idade é o C@#$%*^$ !' e fotos na seção de ARTIGOS do ViaCrux do dia 29/07/2004. Para quem já leu o texto, que está longe ainda de qualquer perfeição, ele sofreu algumas mudanças consideráveis e vale a pena conferí-lo novamente.

Agradecimentos: Cora Rónai, Daniela Caride (O Eco), Pedro Bugim, Guia da Urca, Antônio Paulo Faria, CEB & FEMERJ.

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