Agulha Guillaumet, Patagônia . Roberta Nunes no cume da Agulha Guillaumet . Foto: Sean Leary

Informe Patagônia II
Roberta Nunes & Sean Leary:
Mermoz & Guillaumet na Patagônia em 10 horas


Texto: Roberta Nunes . Fotos: Sean Leary
Todos os direitos sobre o texto e fotos são reservados.

21/03/06: Localizada na província de Santa Cruz, Chaltén, um pequeno povoado rodeado pela cordilheira montanhosa do Fitz Roy e Cerro Torre, atrai todos os anos centenas de trekkers e os melhores alpinistas mundiais com o sonho de galgar seus imponentes cumes. Meus amigos, Sean Leary, Dálio Zippin Neto e Mauricio "Tonto" Clauzet fazíamos parte agora desta comunidade também, onde chegamos a bordo de um XTerra a partir de uma longa viagem que começou em Curitiba no Brasil. Estabelecemos então diversos acampamentos e estratégias para nossas escaladas.

Como todos já sabem, Chaltén é famosa também por sua instabilidade climática, chegando a ser extrema muitas vezes em suas montanhas, com ventos que podem atingir 120km por hora! Todo o cuidado é pouco, e tudo deve ser bem analisado logisticamente. Esta seria minha sétima temporada nestas terras tão inóspitas e tão intensas.



Nossa primeira tentativa foi ao Fitz Roy, Mauricio, Dálio e eu para uma ascenção integral brasileira, fato até hoje inédito para nós. Sean foi tentar a mesma montanha com seu companheiro americano por uma das rotas mais difíceis. Estabelecemos acampamento em Rio Blanco e a partir daí realizamos alguns ataques até o passo superior, local das covas de gelo a seis horas do campo base e mais próximo a parede do Fitz, como duas horas cruzando um glaciar engretado. Muitas horas de caminhada, com mochilas bem pesadas que às vezes chegavam fácil aos 30 quilos, com todo o material de escalada para rocha, gelo, comida, roupas, sacos de dormir, etc. Sem falar no Mauricio que tinha o peso extra das câmeras para obter um bom material em vídeo. Estávamos fortes e preparados, mas infelizmente desta vez foi a montanha quem teve a decisão.

O Fitz Roy (3.441m) nesta temporada em específico encontrava-se em um estado atípico: em pleno final de janeiro completamente congelado, toda sua parede rochosa!!! Com isso, ele expulsou cordadas fortíssimas de todo o mundo, espanhóis, franceses, americanos, alemães, entre outros. Apenas 5 cordadas (duplas de escaladores) das 40 que estavam na tentativa de subir a maior montanha de Chaltén conseguiram com muito sofrimento o cume nestes 3 últimos meses.

Acidentes aconteceram, muitos escaladores baixavam com seus dedos praticamente congelados e assustados com as condições da parede. Sem falar nos curtos tempos de melhora climática que não chegavam a completar um dia inteiro. Devido a todos estes fatores nossa tentativa não foi muito produtiva o que fez trocar os planos. Dálio e Maurício se mudaram para o outro vale, onde existem agulhas menores e que não envolvem tanto o gelo. Infelizmente elegeram lindas agulhas que já havia escalado há cinco anos atrás, o que não me motivou muito para repeti-las. Eu buscava algo novo ou então o Fitz.

Desse modo, juntei-me a Sean para um plano um tanto arrojado e mais atrativo que as geladas paredes do Fitz Roy, ficando em outro campo base. Queríamos tentar duas montanhas em um dia, algo quase que impossível para a Patagônia. Esse feito acabou sendo realizado por dois amigos americanos fortes em menos de 15 horas, o que nos deixou completamente entusiasmados. Fomos para Pedra Del Fraile com carga para cinco dias, nosso plano era escalar a Guillaumet (2.593m) e a Mermoz (2.754m) o mais rápido que pudéssemos, pois as condições não apresentavam 24 horas completas de bom tempo. Controlamos com o barômetro a pressão e em um dia tentamos com toda a força e esperança para que tudo desse certo.



Tivemos muita sorte e conseguimos escalar no dia 26 de fevereiro de 2006 as duas montanhas em apenas dez horas! Guiei a Guillaumet em 3 horas. Levamos 5 horas para o link que incluía 3 agulhas pequenas, mas bem apimentadas com lances de 5.11 e 5.10. E finalmente Sean guiou em simultâneo 12 cordadas da Mermoz em apenas 2 horas. Total 10!

Tivemos um grande susto com nossa volta rapelando, era noite e recém começava uma grande tempestade de neve, prendeu corda, coisas do gênero. Por sorte, meu companheiro é um excelente alpinista e conseguimos nos manter calmos e confiantes até retornarmos exaustos para nossa barraca, o que nos tomou um grande tempo. Acabei me tornando a segunda mulher no mundo a realizar este feito, de dois grandes cumes em poucas horas, que chega a ser quase que um sonho em Chaltén. A outra mulher a realizar-lo foi a americana Steph Davis, uma das mais fortes escaladoras dos EUA, com seu marido Dean Potter nessa mesma temporada, e que foi motivo de nosso entusiasmo.

Retornei ao campo base 3 kilos mais magra, mãos raladas e com uma alegria que explodia em meus olhos por tanta emoção e por estar viva! Encontrei Dálio que me contou feliz sobre suas escaladas pela Saint Exupéry, Mermoz e Media Luna e Mauricio na Inominata nos vinte dias que ficamos afastados em diferentes campos base.

Todos satisfeitos, começamos a pensar em voltar para casa. Já era a primeira semana de março, o clima começa a ficar cada vez mais frio e as oportunidades para escalar acabam por completo, encerrando assim a temporada de 2006.

A volta para este lugar tão mágico é uma certeza. Lá podemos sentir a intensidade dos minutos como momentos de uma real aventura.

Roberta Nunes é curitibana, escala há doze anos e é patrocinada pela Snake, Vibram, Jasmine Alimentos e Kailash.

Para ver mais Roberta Nunes no ViaCrux, entre na seção de ARTIGOS e leiam as matérias: '01/02/2005: Slacklining, aparencendo bem na fita', '01/06/2005: Slacklining on the Beach', '24/10/2005: Escalada Feminina no Brasil´ & '10/11/2005: Roberta Nunes e o El Cap em menos de 24 horas'.

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