Saudades de Roberta Nunes
Texto: André Neves · Fotos: Arquivo Roberta Nunes
Todos os direitos sobre o texto e fotos são reservados

18/07/2007: Roberta Nunes costumava escrever para mim de modo intenso e apressado, quase caótico, a respeito de seus projetos e realizações em escalada. O e-mail acima não foi uma exceção, ela parecia escrever como quem conversa e era inevitável não ler seus textos com a sua voz deliciosa - e seu inconfudível sotaque sulista - em off ecoando na mente.

O entusiasmado e-mail acima foi um dos últimos que dela recebi e não fugiu da regra. Ele relata sua última façanha patagônica, que foi a exaustiva e corajosa escalada em fevereiro de 2006 das agulhas Mermoz e Guillaumet na Patagônia em apenas 10 horas junto com o seu namorado, o escalador americano Sean Leary. Fato sempre impressionante numa Patagônia voluntariosa, insconstante e cheia de perigos.

Em julho do ano passado recebi a notícia: Robertinha, uma das melhores escaladoras do Brasil, havia falecido em um acidente nos EUA. Logo após o choque inicial, imaginei uma escalada difícil onde algo havia dado errado e provavelmente algum engano na informação. Surpresa maior veio depois com a confirmação: a garota, que havia enfrentado tanto perigo em incontáveis paredes ao redor do mundo, havia mesmo perdido a vida, e não em meio a um mar de rocha e sim em um banal acidente de carro.


Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

E hoje faz um ano que a escalada brasileira perdeu em uma estrada de Utah um dos seus maiores e mais promissores talentos. Nesse dia Roberta dirigia o carro para praticar um pouco e de uma hora para outra perdeu o controle do veículo, que capotou algumas vezes. Sean Leary, que estava no carro com ela, não se machucou muito, porém Roberta não teve a mesma sorte e não resistiu aos ferimentos. Algum tempo depois, suas cinzas foram trazidas por Sean para o Brasil e lançadas do cume do Morro do Anhangava em Curitiba, sua terra natal, na presença de parentes e amigos. Nesse dia o cume ficou cheio de escaladores que vieram se despedir dela.

Roberta Nunes era montanhista desde 1993. Antes disso, havia sido modelo fotográfico e bailarina clássica. E justamente por ser bailarina é que um dia ela foi convidada por amigos a subir o Anhangava. "Foi o primeiro contato com a montanha e eu fiquei impressionada com as pessoas escalando naquele dia: o controle mental delas e a capacidade de enfrentar aquele desafio. Isto me estimulou a conhecer a atividade e o balé facilitou a minha adaptação ao alpinismo", disse ela em uma entrevista.

Desde então, esc
alou bastante e em diversos países: Argentina, Chile, EUA, França, Espanha, Groenlândia, Brasil e onde existisse rocha e vias de qualidade. Fez disso um estilo de vida e também o seu ganha pão, trabalhando intensamente em projetos de escalada, fotografando, sendo fotografada, participando de filmes e documentários, fazendo apresentações sobre suas aventuras ao redor do mundo, correndo atrás de patrocínios, entre outras coisas. E ainda tinha tempo para se tornar a melhor slackliner do Brasil como mostra bem a sua travessia no Rostrum no em Yosemite nos EUA feita há alguns anos atrás.

Ao longo do tempo adquiriu experiência e currículo invejável, com reconhecimento internacional e concorrendo até com os melhores escaladores brasileiros. Era pau para toda obra, uma verdadeira all-around climber, como dizem os americanos, com técnica e domínio de material impecáveis. Segundo o escalador Antônio Paulo Faria em seu livro Montanhismo Brasileiro, Paixão e Aventura, Roberta era a escaladora brasileira mais completa: escalava rápido, guiava vias difíceis tanto com proteções fixas como móveis, inclusive em situações delicadas. Dominava diversas modalidades de escalada. Ela costuma reclamar, ainda segundo o autor, que era difícil encontrar escaladoras brasileiras que topassem fazer com ela o que ela costumava fazer na parede. Como o autor do livro bem disse, no ritmo em que ela estava indo, dificilmente encontria até mesmo um parceiro de escalada aqui.


Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

Roberta não era uma amiga intíma minha, mas era amiga querida. Bem humorada, inteligente, cheia de charme e bonita. Escaladora corajosa e talentosa. Tive pouco contato com ela pessoalmente, mas sempre que a encontrava tínhamos longas conversas sobre eventuais projetos, sobre as coisas boas e também ruins da escalada, da vida que ela havia escolhido, vivendo de escalada, escalando em lugares remotos, viajando sempre. E adorava botar uma pilha, vivia me convidando para participar de alguma escalada, de algum projeto, de ir para Yosemite. Em 2005, ela me convidou para ir no bonde que partiu com ela do Brasil para a Patagônia na temporada de 2006, mais acima mencionada. Uma pena enorme não poder ter aceito o convite, perdi uma única e última oportunidade.


Eu a conheci em 2002 na casa do escalador e amigo Alexandre Portela em Teresópolis. A intenção era ir subir algumas vias na famosa Pedra Comprida ou Ser de Pedra em Petrópolis e também discutir um projeto de escalada em um lugar remoto, que acabou não saindo do papel. Na noite anterior, trocamos algumas figurinhas, típica conversa de escaladores que ainda não se conhecem e procuram saber um do outro eventuais talentos e também falhas, claro. Ela dispensava maiores apresentações, já tinha ouvido falar bastante dela. E eu, escalador quase que ainda novato, contei com certa reserva (porém com certo orgulho, confesso) algumas das escaladas legais que havia feito, que perto dos dois escaladores não era nada obviamente.


Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

No dia seguinte já na Falésia do Ser. Ela e eu chegamos primeiro à base, e para o meu espanto, em meio a conversa, ela começou a trocar algumas peças de roupa por algumas mais leves para escalar na minha frente para escalar. Ela era assim, me olhou como se nunca tivesse visto uma mulher na vida e riu dizendo para que eu me virasse, pois ela ía "fazer pipi". Sem inibições bobas da civilização, Roberta parecia não estar nem aí para certas convenções e pudores.

O Alê e ela entraram na primeira parte de 8a da fissura Hieroglifo. Alê, com seu talento incomparável na rocha, equipou em móvel a via e a encadenou na segunda tentativa totalmente "fora de forma" e ainda por cima com uma lesão no biceps. Roberta não foi muito bem, sem muito treino em vias mais esportivas então, mas fez todos os movimentos. Acho que ela ficou p.. da vida com isso!

Depois entrei na Testosterona (7c) e daí foi um desastre. Uma das primeiras coisas que aprendi em escalada é que se você não estiver num bom dia, vá à praia, ler um livro, fique na base dando segura, qualquer coisa, mas esqueça a rocha. E definitivamente esse não era um bom dia para mim e me veio um bloqueio idiota me impediu de chegar mesmo até o 3º grampo da via. Ninguém entendeu nada, muito menos Roberta, que com razão deve ter pensado que boa parte dos meus causos da noite anterior eram pura fanfarronice. Amarelei mesmo e desisti de escalar pelo resto do dia. Claro que fiquei morrendo de vergonha. Dois dias depois, o tendão mais forte da minha coxa esquerda se rompeu inteiramente quando escalava no Rio, o que pode explicar em parte esse comportamento bizarro. Bom, voltamos para a casa do Alê e lá, junto com a esposa dele, a Bella, bebemos um vinho horroroso, rimos pra caramba e ficamos conversando horas a fio.

Voltamos, Roberta e eu, para o Rio no meu carro. E não paramos de falar um momento sequer. Daí, se ela teve uma primeira impressão de mim horrível, talvez na volta ao Rio essa impressão tenha dado lugar a um início de amizade. E era um prazer conversar com ela. Era toda planos e projetos, e deles falava sempre com entusiasmo contagiante. E quando nos encontrávamos, conversávamos sobre escalada brasileira, escalada no exterior, escalada esportiva, escalada em lugares remotos, ética na escalada... escalada, escalada e escalada. Era sempre o tom da conversa.

E infelizmente foram poucas as vezes que nos encontramos desde aquele fatídico feriado em Petrópolis, sendo que a última vez foi em 2004 no Festival Internacional de Filmes de Montanha, a edição nacional do Festival de Banff do Canadá, que na época eu já cobria. Ela participava cedo como palestrante em um dos dias da mostra, horário ingrato antes dos filmes que contava com público miúdo. E cheguei cedo, pois queria encontrá-la antes. E ela toda animada me disse que a palestra iria se transformar em uma sessão de filme. Ela havia conseguido a tempo uma cópia do documentário Hidrofilia sobre a conquista que ela havia feito junto com a escaladora espanhola Cecilia Buil na Groelândia. Lá, em agosto de 2003, elas conquistaram no maciço Thumbnail - debaixo de um tempo impiedoso - a mais extensa via de escalada feita por uma cordada feminina e isso em seis dias de escalada e sem fixar cordas. A via, com seus 1.620 metros de extensão e 31 enfiadas, foi batizada devidamente como Hidrofilia (VI, 6c+/7a, A2+, grau francês). Sorte do escasso público presente, que acabou vendo uma das melhores coisas da noite.

Para encarar essa empreitada, Roberta remou 31 km pelo mar em um caiaque para chegar até a base da montanha, passando pelo o perigo de cair nas gélidas águas da costa sul da Groelândia e/ou de ser devorada por uma baleia orca. E ainda enfrentou tempo instável, tempestades, escalada difícil e cansativa e ainda uma descida do cume cavernosa. Na época, havia feito um contraponto entre a sisudez da espanhola com a irreverência e bom humor da nossa representante brasileira. Ponto para a Roberta, que meio que rouba a cena no filme.

Robertinha ainda conquistou outros recordes: em Yosemite foi a segunda mulher mais rápida a escalar a Regular Route do Half Dome (em apenas 7 horas) com o seu parceiro José Pereyra e a primeira sul-americana a escalar em menos de 24 horas o paredão do El Capitan pela via Lurking Fear, feito realizado com Sean Leary em somente 15 horas. Além disso, fez alguns big walls em solitário e quase chegou ao topo do Fitz Roy na Patagônia pelas vias Afanassief e depois pela Franco Argentina, faltando em ambos os casos pouco para chegar ao cume.


Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

Fotos: Dálio Zappin Neto

A curitibana pelo visto era mesmo durona, uma vez que entrava nas roubadas, costumava ir até ao fim. Era corajosa, mas me confessou nesse nosso último encontro, que tinha também bastante medo. Falávamos muito sobre isso. Ela tinha projetos ambiciosos e ao mesmo tempo, tinha certo receio, mas acredito que era apenas uma falta de segurança ligada a uma certeza de que ainda tinha que aprender muito. Mas sabia ao mesmo tempo do seu valor e corria atrás de seus planos com afinco e paixão, mesmo sem saber no que ía dar. Creio que o último projeto que ela havia mencionado para mim no Banff 2004 foi uma cordada feminina na The Shield, escalada exigente e exposta no maçido rochoso do El Capitan em Yosemite. Com sua tenacidade, certamente teria realizado a ascensão da via em tempo recorde.

Glacyra Nunes, irmã de Roberta, batalha para não deixar esse legado esquecido. Além de uma bota da marca brasileira Snake em homenagem a Roberta, o modelo Roby Dry, ela ainda tenta viabilizar uma fundação que levará o nome da irmã e que cuidará de causas relacionadas à montanha.

Enfim, Roberta nos deixou muito cedo. Vai fazer falta sua conversa, seu bom humor, sua risada e aquele brilho nos olhos ao falar da sua maior de suas maiores paixões, que era a rocha.

Vai fazer falta também as escaladas que não fiz com ela, que por um capricho do destino, foram todas momentaneamente adiadas. Sim, prefiro dizer adiadas, sabe-se lá se não existe um céu para os escaladores? Talvez lá ainda tenha uma chance de escalar um dia mais uma vez - e dessa vez de verdade - com a charmosa Robertinha Nunes.


Site Oficial de Roberta Nunes
www.robertanunes.esp.br


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Guia da Urca - Luto na Montanha
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